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Reforma da língua
portuguesa
Uma assembleia nada tranquila
Não erramos, não.
Assim ficará a escrita, caso três países
ratifiquem acordo ortográfico
Rodrigo Stüpp
João ia a uma assembleia de estudantes. No caminho,
sentiu enjoo. Teve a ideia de ir a uma farmácia. Disse
ao balconista que a barriga doía porque tinha comido muita
linguiça. Calma, leitor! As palavras sem acento, que deixariam
qualquer corretor ortográfico maluco, são uma simulação
de como a língua portuguesa poderá ficar a partir
de 2008. Basta Portugal ratificar um acordo assinado por Brasil
e Cabo Verde em 1994.
Alvo
Portugueses discordam das mudanças, que unificariam cerca
de 90% da grafia em nove países |
O
problema é que os portugueses discordam das mudanças
propostas pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa
(CPLP). Elas unificariam cerca de 90% da grafia da língua
em nove países. Mas não alterariam o sentido das
palavras em cada país.
Não são tantas as mudanças propostas (veja
quadro). Segundo a CPLP, apenas 0,5% das regras do português
do Brasil seriam alteradas. No caso de Portugal, a modificação
seria de 1,5%. Por trás dessa mudança pode estar
o lobby de editoras e livreiros.
A troca de letras remete quase a uma troca de farpas. Já
faz tempo que Brasil e Portugal não falam nem escrevem
a mesma língua. Das cinco grandes mudanças efetivadas
no último século, nenhuma agradou a brasileiros
e lusitanos. Em 1943, por exemplo, só o Brasil modificou
o uso de s para casa. O "ph" com som de
f também foi extinto. Assim, pharmácia
virou farmácia.
Em 1945, foi a vez de os portugueses aprovarem a sua mudança,
só para eles. Anos mais tarde, em 1970, houve um acordo
prévio. O Brasil derrubou uma penca de acentos, mas Portugal
não mudou uma vírgula na escrita. Para o professor
Aurélio Solano, doutor em letras pela Universidade Federal
Fluminense, essa foi uma prova de que os portugueses não
aceitam que mexam na língua que eles criaram. A
língua escrita vai acompanhar a falada, que muda muito
rápido, que é dinâmica, afirma.
O conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Brasília,
Adriano Jordão, diz apenas que seu país ainda não
ratificou o tratado por questões jurídicas. Portugal
contesta que o acordo pode entrar em vigor com a assinatura de
três países.
rodrigo.stupp@an.com.br
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Os dois lados da mudança
na língua
A proposta é interpretada com ressalva pela Academia
Brasileira de Letras (ABL). Os imortais vêem (por enquanto,
a palavra tem acento) pontos positivos e negativos na mudança.
A unificação da escrita é boa para o português,
segundo Evanildo Bechara, que ocupa a cadeira número 33
da ABL desde 2000. Livros poderiam ser editados igualmente
em todos os países de língua portuguesa, por exemplo,
diz Bechara, que está diretamente envolvido com as alterações.
Para ele, o português precisa se impor como terceira língua
mais falada do ocidente.
O presidente da Academia, Marcos Vinicios Vilaça, também
acha a uniformização positiva para a língua.
Ele ressalta que Moçambique está se aproximando
muito do inglês, por causa dos interesses econômicos.
Vilaça vê os países de língua espanhola
como exemplo. Eles utilizam apenas um dicionário,
resultado do trabalho da Real Academia da Espanha e de outras
17 academias de países hispânicos, diz. Para
o imortal, Portugal tende a se isolar se não aderir ao
acordo.
Mas Bechara e Vilaça fazem ressalvas. Eles concordam que
a mudança traria gastos enormes ao país e a todo
mundo que compra livros. Os exemplares mais vendidos são
os escolares. Então, os que já foram publicados
seriam inutilizados. É ruim para quem compra e bom para
quem vende, esclarece o professor Bechara. Para ele, um
lobby de editoras pode estar por trás da pressa
em assinar o acordo.
O professor Bechara diz que mais importante que a mudança
é o tamanho que ela poderia ter. Para a ABL, regras distintas
para Portugal e Brasil ficaram de fora do acordo. Um exemplo
é o hífen, que tem cerca de 20 regras diferentes
de utilização, mas não sofreu grandes modificações.
A ABL considera a mudança importante, mas diz que o assunto
deve ser melhor discutido. Com mudanças tão
pequenas, em pouco tempo, outra pode ser necessária,
afirma o presidente Marcos Vilaça.
Cláudio Moreno, doutor em letras, diz que é um
completo desperdício. "Assisti às mudanças
de 1971, quando tiraram os acentos de gelo e coco. Muitos dicionários
e os livros de literatura infantil foram para o lixo."
O que muda para os brasileiros
Leem
Com a mudança, o acento circunflexo (lêem) deixa
de existir nesse verbo, assim como em "creem", "veem"
e derivados.
Ideia, jiboia
Acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi"
de palavras paroxítonas deixará de ser usado. Vale,
por exemplo, para "ideia", "heroica", "jiboia",
entre outros.
Amámos, louvámos
Assim ficará a grafia das palavras hoje escritas "amamos"
e "louvamos". Acento agudo na primeira pessoa do plural
(nós) do pretérito perfeito (passado) dos verbos
da primeira conjugação. É para diferenciar
do presente (amamos, louvamos)
K, W, Y
As consoantes serão incorporadas ao alfabeto, que passa
de 23 para 26 letras.
Baiuca
As vogais tônicas "i" e "u" dessa e
das outras paroxítonas precedidas de ditongo (encontro
de vogais na mesma sílaba) deixarão de levar acento
agudo.
Sagui, linguiça
O trema será extinto. A mudança não vale
para nomes próprios e sobrenomes.
E para os portugueses, como fica?
Úmido
Deixam de escrever "húmido" para escrever "úmido".
(O "h" sem som desaparece, a não ser que seja
uma palavra com sentido ancestral, como homem, que vem de homus)
Ação, ótimo
Também desaparecem da língua escrita, em Portugal,
as letras "c" e "p" das palavras nas quais
elas não são pronunciadas, como em "acção",
"acto", "adopção", "baptismo",
"óptimo" e "egipto".
Onde se fala português:
Portugal e Brasil têm o português como idioma oficial.
Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique,
São Tomé e Príncipe e Timor Leste é
o idioma oficial em conjunto com outras línguas.
O processo
1990
Assinado o acordo ortográfico pelos oito países
onde o português é o idioma oficial.
A Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências
de Lisboa encabeçaram a mudança desde 1980.
1994
As academias de Letras de Brasil e Portugal, responsáveis
pela elaboração, concluem a mudança. O acordo
entraria em vigor este ano. Bastava a ratificação
de todos os membros. Mas apenas Brasil e Cabo Verde ratificaram.
2001
No Brasil, o acordo é aprovado pelo Congresso Nacional
e sancionado pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso.
2004
Os oito países propõem a retomada das negociações.
É realizada uma mudança, que alterou a quantidade
de países necessários para fazer a mudança.
A partir de então, apenas três seriam necessários.
2006
Em dezembro, São Tomé e Príncipe assinou
o acordo. Com três assinaturas, a escrita língua
pode ser modificada conforme
foi acertado.
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MEC diz que não haverá
prejuízos
Do lado de cá do Atlântico, o frisson é
grande no governo federal. A Academia Brasileira de Letras (ABL)
não crê em mudanças imediatas para
2008 e 2009. Mas o governo federal, sim. O assessor especial
do Ministério da Educação (MEC) para o assunto,
Carlos Alberto Xavier, diz que em dois anos a mudança
poderá chegar aos livros.
Para Xavier, o acordo está oficialmente fechado e ratificado.
É necessário que três países
concordem, e é o que ocorre. Aguardamos Portugal por questão
de ordem, mas podemos seguir com as mudanças sim,
diz Xavier. Segundo ele, a mudança não aconteceu
antes por causa dos livros didáticos, que têm, disparado,
a maior tiragem do País. Ainda assim, o Brasil tenta que
Portugal aceite o acordo.
O assessor do MEC refuta a idéia de gastos extras com
os livros. No caso da rede pública, os livros são
reaproveitados por um período. Essa validade está
acabando e os novos exemplares virão com as novas regras,
esclarece Xavier. Ele diz que os didáticos serão
substituídos aos poucos, conforme a necessidade. E os
de romance, podem ser lidos normalmente. Para o MEC, a vantagem
do acordo, além do fortalecimento da língua portuguesa,
é a abertura de novos mercados editoriais. As tiragens
podem ser maiores tanto para Portugal quanto para o Brasil,
acredita Xavier. |