clicRBS

Joinville Domingo, 01 de julho de 2007 Santa Catarina - Brasil

Geral - A Notícia (47) 3431-9111
Geral - geral@an.com.br

Reforma da língua portuguesa

Uma assembleia nada tranquila

Não erramos, não. Assim ficará a escrita, caso três países ratifiquem acordo ortográfico

Rodrigo Stüpp

João ia a uma assembleia de estudantes. No caminho, sentiu enjoo. Teve a ideia de ir a uma farmácia. Disse ao balconista que a barriga doía porque tinha comido muita linguiça. Calma, leitor! As palavras sem acento, que deixariam qualquer corretor ortográfico maluco, são uma simulação de como a língua portuguesa poderá ficar a partir de 2008. Basta Portugal ratificar um acordo assinado por Brasil e Cabo Verde em 1994.

Alvo
Portugueses discordam das mudanças, que unificariam cerca de 90% da grafia em nove países
O problema é que os portugueses discordam das mudanças propostas pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Elas unificariam cerca de 90% da grafia da língua em nove países. Mas não alterariam o sentido das palavras em cada país.
Não são tantas as mudanças propostas (veja quadro). Segundo a CPLP, apenas 0,5% das regras do português do Brasil seriam alteradas. No caso de Portugal, a modificação seria de 1,5%. Por trás dessa mudança pode estar o lobby de editoras e “livreiros”.
A troca de letras remete quase a uma troca de farpas. Já faz tempo que Brasil e Portugal não “falam nem escrevem” a mesma língua. Das cinco grandes mudanças efetivadas no último século, nenhuma agradou a brasileiros e lusitanos. Em 1943, por exemplo, só o Brasil modificou o uso de “s” para casa. O "ph" com som de “f” também foi extinto. Assim, “pharmácia” virou “farmácia”.
Em 1945, foi a vez de os portugueses aprovarem a sua mudança, só para eles. Anos mais tarde, em 1970, houve um acordo prévio. O Brasil derrubou uma penca de acentos, mas Portugal não mudou uma vírgula na escrita. Para o professor Aurélio Solano, doutor em letras pela Universidade Federal Fluminense, essa foi uma prova de que os portugueses não aceitam que mexam na língua que eles criaram. “A língua escrita vai acompanhar a falada, que muda muito rápido, que é dinâmica”, afirma.
O conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Brasília, Adriano Jordão, diz apenas que seu país ainda não ratificou o tratado por questões jurídicas. “Portugal contesta que o acordo pode entrar em vigor com a assinatura de três países.”

rodrigo.stupp@an.com.br

....................................................

Os dois lados da mudança na língua

A proposta é interpretada com ressalva pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Os imortais vêem (por enquanto, a palavra tem acento) pontos positivos e negativos na mudança. A unificação da escrita é boa para o português, segundo Evanildo Bechara, que ocupa a cadeira número 33 da ABL desde 2000. “Livros poderiam ser editados igualmente em todos os países de língua portuguesa, por exemplo”, diz Bechara, que está diretamente envolvido com as alterações. Para ele, o português precisa se impor como terceira língua mais falada do ocidente.
O presidente da Academia, Marcos Vinicios Vilaça, também acha a uniformização positiva para a língua. Ele ressalta que Moçambique está se aproximando muito do inglês, por causa dos interesses econômicos. Vilaça vê os países de língua espanhola como exemplo. “Eles utilizam apenas um dicionário, resultado do trabalho da Real Academia da Espanha e de outras 17 academias de países hispânicos”, diz. Para o imortal, Portugal tende a se isolar se não aderir ao acordo.
Mas Bechara e Vilaça fazem ressalvas. Eles concordam que a mudança traria gastos enormes ao país e a todo mundo que compra livros. “Os exemplares mais vendidos são os escolares. Então, os que já foram publicados seriam inutilizados. É ruim para quem compra e bom para quem vende”, esclarece o professor Bechara. Para ele, um lobby de editoras pode estar por trás da “pressa” em assinar o acordo.
O professor Bechara diz que mais importante que a mudança é o tamanho que ela poderia ter. Para a ABL, regras distintas para Portugal e Brasil ficaram de fora do acordo. Um exemplo é o hífen, que tem cerca de 20 regras diferentes de utilização, mas não sofreu grandes modificações. A ABL considera a mudança importante, mas diz que o assunto deve ser melhor discutido. “Com mudanças tão pequenas, em pouco tempo, outra pode ser necessária”, afirma o presidente Marcos Vilaça.
Cláudio Moreno, doutor em letras, diz que é um completo desperdício. "Assisti às mudanças de 1971, quando tiraram os acentos de gelo e coco. Muitos dicionários e os livros de literatura infantil foram para o lixo."

O que muda para os brasileiros

Leem
Com a mudança, o acento circunflexo (lêem) deixa de existir nesse verbo, assim como em "creem", "veem" e derivados.

Ideia, jiboia
Acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas deixará de ser usado. Vale, por exemplo, para "ideia", "heroica", "jiboia", entre outros.

Amámos, louvámos
Assim ficará a grafia das palavras hoje escritas "amamos" e "louvamos". Acento agudo na primeira pessoa do plural (nós) do pretérito perfeito (passado) dos verbos da primeira conjugação. É para diferenciar do presente (amamos, louvamos)

K, W, Y
As consoantes serão incorporadas ao alfabeto, que passa de 23 para 26 letras.

Baiuca
As vogais tônicas "i" e "u" dessa e das outras paroxítonas precedidas de ditongo (encontro de vogais na mesma sílaba) deixarão de levar acento agudo.

Sagui, linguiça
O trema será extinto. A mudança não vale para nomes próprios e sobrenomes.

E para os portugueses, como fica?

Úmido
Deixam de escrever "húmido" para escrever "úmido". (O "h" sem som desaparece, a não ser que seja uma palavra com sentido ancestral, como homem, que vem de homus)

Ação, ótimo
Também desaparecem da língua escrita, em Portugal, as letras "c" e "p" das palavras nas quais elas não são pronunciadas, como em "acção", "acto", "adopção", "baptismo", "óptimo" e "egipto".

Onde se fala português:
Portugal e Brasil têm o português como idioma oficial. Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste é o idioma oficial em conjunto com outras línguas.

O processo

1990
Assinado o acordo ortográfico pelos oito países onde o português é o idioma oficial.

A Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa encabeçaram a mudança desde 1980.

1994
As academias de Letras de Brasil e Portugal, responsáveis pela elaboração, concluem a mudança. O acordo entraria em vigor este ano. Bastava a ratificação de todos os membros. Mas apenas Brasil e Cabo Verde ratificaram.

2001
No Brasil, o acordo é aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso.

2004
Os oito países propõem a retomada das negociações. É realizada uma mudança, que alterou a quantidade de países necessários para fazer a mudança. A partir de então, apenas três seriam necessários.

2006
Em dezembro, São Tomé e Príncipe assinou o acordo. Com três assinaturas, a escrita língua pode ser modificada conforme
foi acertado.

....................................................

MEC diz que não haverá prejuízos

Do lado de cá do Atlântico, o frisson é grande no governo federal. A Academia Brasileira de Letras (ABL) não crê em mudanças imediatas – para 2008 e 2009. Mas o governo federal, sim. O assessor especial do Ministério da Educação (MEC) para o assunto, Carlos Alberto Xavier, diz que em dois anos a mudança poderá chegar aos livros.
Para Xavier, o acordo está oficialmente fechado e ratificado. “É necessário que três países concordem, e é o que ocorre. Aguardamos Portugal por questão de ordem, mas podemos seguir com as mudanças sim”, diz Xavier. Segundo ele, a mudança não aconteceu antes por causa dos livros didáticos, que têm, disparado, a maior tiragem do País. Ainda assim, o Brasil tenta que Portugal aceite o acordo.
O assessor do MEC refuta a idéia de gastos extras com os livros. “No caso da rede pública, os livros são reaproveitados por um período. Essa validade está acabando e os novos exemplares virão com as novas regras”, esclarece Xavier. Ele diz que os didáticos serão substituídos aos poucos, conforme a necessidade. E os de romance, podem ser lidos normalmente. Para o MEC, a vantagem do acordo, além do fortalecimento da língua portuguesa, é a abertura de novos mercados editoriais. “As tiragens podem ser maiores tanto para Portugal quanto para o Brasil”, acredita Xavier.



   Este Portal é melhor visualizado na resolução 800x600
Expediente
 Copyright © A Notícia - Fone 055-0xx47 3431 9000 - Fax 055-0xx47 3431 9100
 Rua Caçador, 112 - CEP 89203-610 - C. Postal: 2 - 89201-972 - Joinville - SC - Brasil