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Joinville Sábado, 21 de julho de 2007 Santa Catarina - Brasil

Destaque - A Notícia

Tragédia no vôo 3054

4 dias depois...

Lula vai à TV anunciar pacote de ações para conter a crise no setor aéreo, presta solidariedade às famílias das vítimas e pede serenidade

Brasília

Quatro dias depois e 191 mortes confirmadas até agora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu, em pronunciamento à nação, que o governo fará o "possível e impossível" para apurar as causas do acidente com o Airbus 320 da TAM, na terça-feira, em Congonhas. Ao anunciar um pacote de medidas para o setor aéreo, ele classificou o Aeroporto de Congonhas, palco da maior tragédia da aviação brasileira, como o maior problema.
"Com as medidas que anuncio hoje (ontem) e com outras providências que o governo irá tomar nos próximos dias, tenho certeza de que o nosso sistema aéreo voltará a se adequar às necessidades do País", prometeu. Ele pediu serenidade aos brasileiros em relação ao pacote de medidas que o governo vai implantar para controlar a crise do tráfego aéreo do País.
Repetidas vezes, Lula afirmou que o sistema de tráfego aéreo brasileiro é seguro. "O nível de segurança do nosso sistema aéreo é compatível com todos os padrões internacionais. Não podemos perder isso de vista."
O teor do pronunciamento, que seria mais técnico, acabou sendo mudado pelo cerimonial ao longo do dia. O tom mais emotivo foi definido após a repercussão negativa dos gestos obscenos feitos pelo assessor da Presidência, Marco Aurélio Garcia, flagrados enquanto assistia ao noticiário do "Jornal Nacional" que levantava a suspeita de falha mecânica no avião da TAM (leia mais na página A6).
O presidente prestou condolências às famílias das vítimas do maior acidente da aviação brasileira. "Choramos e nos revoltamos junto com vocês. Não conseguimos aceitar a tragédia. E eu, pessoalmente, sofro como pai, como esposo e como presidente. Acima de qualquer outra consideração, é hora de dar todo carinho e apoio às mães, aos pais, aos filhos, aos parentes e aos amigos dos passageiros e tripulantes do vôo 3054 e dos funcionários da TAM que morreram na tragédia. Que nosso carinho e nossa solidariedade possam ajudar a aliviar a dor irreparável que estão sentindo."
Lula falou ainda sobre as outras decisões: fortalecimento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), modernização do controle de tráfego aéreo, construção de um novo aeroporto em São Paulo e exigência de que as companhias aéreas tenham regime aeronaves e tripulações sobressalentes para serem acionadas em caso de urgência.
"Nada que se possa fazer trará de volta aqueles que amamos e perdemos, mas quero que todos saibam que o governo está fazendo e fará o possível e o impossível para apurar as causas do acidente. A Aeronáutica já iniciou as investigações. Por determinação minha, a Polícia Federal também está trabalhando no caso. Todas as hipóteses serão examinadas", afirmou.

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Ações só dez meses após o início da crise

Dez meses depois do início da crise aérea, o governo federal anunciou ontem o pacote para desafogar o Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, o mais movimentado do País. Dentro de 60 dias, ele deixará de ser o principal ponto de distribuição de vôos, conexões e escalas.
A decisão foi divulgada depois de dois dias de reuniões com o presidente Lula e da aprovação do pacote pelos representantes do Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac). Com isso, pelo menos 5,4 milhões de passageiros, que fazem conexões e escalas em Congonhas, 30% do total de movimentos, deixarão de circular pelo aeroporto mais movimentado do País, que recebe hoje em torno de 18,8 milhões de passageiros por ano.
Em Congonhas só funcionarão vôos diretos, no estilo ponte aérea. O avião que tiver como destino Brasília, por exemplo, terá de seguir para a capital e, de lá, regressar para o mesmo aeroporto. Os vôos fretados ficarão proibidos de operar em Congonhas e haverá um limite de pousos e decolagens para os jatos executivos. Esses dois segmentos de passageiros representam 10% do movimento de Congonhas. Ao serem retirados de lá, diminuirão ainda em 1,8 milhão o número de pessoas que passam pelo aeroporto.

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Especialistas questionam prioridade

O anúncio de um novo aeroporto em São Paulo foi considerado como necessário, mas não "prioritário" por especialistas em segurança de vôo. O pacote de medidas para reduzir o tráfego aéreo no Aeroporto de Congonhas foi bem recebido, com a ressalva de que será necessário aguardar sua adoção para avaliar os resultados na prática.
"A construção de um novo aeroporto em São Paulo é viável, mas a prioridade deve ser a conclusão do terceiro terminal e da terceira pista do Aeroporto de Guarulhos", disse o presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Transporte Aéreo, Anderson Correia, professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
O coordenador-técnico da Agência de Desenvolvimento de Guarulhos (Agende), Marcelo José Chueiri, disse que essas obras, estimadas em R$ 2 bilhões, elevariam para 30 milhões a capacidade de movimentação de pessoas ao ano. Atualmente, Cumbica comporta 21 milhões, mas recebe, em média, 17 milhões de pessoas.
O comandante aposentado Carlos Camacho, diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas, afirmou que a redução dos vôos no Aeroporto de Congonhas vai melhorar as condições de tráfego em toda a área de controle de São Paulo.

Trechos do pronunciamento

“Nós, brasileiros, estamos vivendo dias muito tristes, sob o impacto do acidente com o avião da TAM, em Congonhas, que ceifou a vida de tantos compatriotas. Estamos todos, homens e mulheres, de Norte a Sul do Brasil, com o coração sangrando.”

“Sentimos suas perdas como se fossem nossas. Choramos e nos revoltamos junto com vocês. Não conseguimos aceitar a tragédia. E eu, pessoalmente, sofro como pai, como esposo e como presidente.”

“Como presidente, quero garantir às famílias que, além da apuração rigorosa dos fatos, estamos tomando todas as providências ao nosso alcance para diminuir os riscos de novas tragédias.”

“Nosso sistema aéreo, apesar dos investimentos que fizemos na expansão e na modernização de quase todos os aeroportos brasileiros, passa por dificuldades. E seu maior problema hoje é a excessiva concentração de vôos em Congonhas. E é isso que precisamos resolver imediatamente.”

“Meus amigos e minhas amigas, na apuração dos fatos, estamos trabalhando com rigor e serenidade, sem precipitações. Rigor para conhecer a verdade e serenidade para não cometer injustiças.”

“Com as medidas que anuncio hoje (ontem) e com outras providências que o governo irá tomar nos próximos dias, tenho certeza de que o nosso sistema aéreo voltará a se adequar às necessidades do país.”

“O governo está fazendo e fará o possível e o impossível para apurar as causas do acidente.”

1 - Mudança do perfil operacional do Aeroporto de Congonhas, com proibição de vôos fretados. Os vôos já autorizados deverão ser redistribuídos para outros aeroportos.
2 - Fortalecimento da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac) para que atue mais efetivamente em defesa dos interesses dos usuários do sistema nacional.
3 - Intensificação das medidas de modernização do controle de tráfego aéreo.
4 - Construção de um novo aeroporto na região de São Paulo. Definição do local deve ocorrer em 90 dias.
5 - Exigência de que as companhias aéreas tenham sempre, de sobreaviso, em regime de contingência, aeronaves e tripulações para ser acionadas em caso de necessidade.
6 - Redistribuição, até o fim de setembro, dos horários de vôos das companhias aéreas em Congonhas, com o objetivo de restringi-las a vôos diretos, garantindo que o aeroporto não

seja mais ponto de conexão ou escala.

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Tem como justificar?

Assessor de Lula tenta explicar os gestos que fez ao ouvir notícia de possível falha mecânica no avião da TAM

Brasília

Um flagrante de gestos comprometedores do assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, ministro Marco Aurélio Garcia, criou mais turbulência para o governo Lula. Garcia foi filmado festejando, com gesto obsceno, no seu gabinete, o noticiário do "Jornal Nacional", da TV Globo, na quinta-feira, sobre o acidente da TAM que provocou, até agora, 191 mortes. O JN noticiava um possível problema técnico no Airbus que realizava o vôo 3054.
O significado do gesto de Garcia parecia claro: a TAM se estrepou, melhor para o governo. Ao seu lado, o assessor de imprensa Bruno Gaspar foi ainda mais grosseiro: um trejeito imitando o ato sexual.
No momento em que o âncora Willian Bonner dava a informação sobre os problemas com o reverso do avião, Garcia ajeitou os óculos e bateu a mão direita aberta sobre a mão esquerda fechada, três vezes. Essa imagem, exibida pelo "Jornal da Globo", foi captada por um cinegrafista da emissora no gabinete do assessor, no Palácio do Planalto.
Ontem, o líder do PSDB na Câmara, deputado Antonio Carlos Pannunzio (SP), divulgou nota oficial, defendendo a demissão do ministro. "Não há desculpa que justifique a cena. Não há atitude que redima o desrespeito com uma nação inteira", diz a nota.
Questionado sobre o gesto, o ministro tentou argumentar que as imagens foram feitas à revelia. Ontem, Garcia divulgou nota pedindo desculpas pelo gesto. "Minha reação, absolutamente pessoal, não expressa satisfação, alívio ou felicidade, como pretenderam setores da mídia", afirma Garcia no comunicado.
Segundo ele, "sem nenhuma investigação ou parecer técnico consistente, importantes setores dos meios de comunicação não hesitaram, poucas horas depois do acidente, em lançar sobre o governo a responsabilidade da tragédia de São Paulo".
Vídeos com as imagens foram parar até na página do YouTube (youtube.com).

Outros gestos polêmicos

Devalni Balbino
Prefeito de Floresta do Araguaia (PA), Devalni
Balbino (PMDB) se ajoelhou diante do presidente Lula
em um encontro de prefeitos, em 17 de setembro de 2006. Lula havia afirmado que não era preciso humilhação para os municípios obterem verbas federais.

Angela Guadagnin
A deputada federal Angela Guadagnin (PT-SP) provocou indignação ao bailar no plenário da Câmara na madrugada de 23 de março de 2006. Com a conhecida "dança da pizza", Angela comemorava a absolvição de João Magno (PT-MG), então suspeito de envolvimento
com o valerioduto.

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Mais problemas

Airbus 320 da TAM teve falha mecânica no final do mês passado. Piloto foi obrigado a abortar decolagem em Recife por complicação hidráulica

O Airbus 320 da TAM que se chocou contra um prédio após pousar em Congonhas apresentou problemas nos últimos 30 dias, segundo o “Jornal Nacional”. Na noite do dia 24, um piloto foi obrigado a abortar a decolagem no aeroporto dos Guararapes, em Recife, por causa de falhas no sistema hidráulico. O avião estava partindo para Natal. A TAM confirmou o fato.

Reversor
Peça já foi causa de acidente com um Airbus 320 há 14 anos, na Polônia. Duas pessoas acabaram morrendo
Segundo a companhia aérea, o procedimento foi adotado porque o piloto verificou que uma das três luzes de advertência do sistema acendeu no momento da decolagem. O sistema foi reabastecido com óleo e o avião seguiu viagem normalmente.
No sábado passado, mecânicos da empresa detectaram um vazamento no sistema hidráulico do reversor da turbina direita. O equipamento foi desligado e travado, seguindo orientação da fabricante do avião (leia mais abaixo). Em um prazo de até dez dias, o Airbus teria de ser submetida a uma revisão do equipamento. Uma geral, quando o avião é praticamente desmontado, estava programada para o próximo ano. A aeronave tinha 26,3 mil horas de uso. O primeiro vôo foi em fevereiro de 1998.
Os pilotos tomaram um novo susto na tarde de segunda-feira, ao pousar em Congonhas, vindos do aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. O avião só teria conseguido parar muito próximo do final da pista. O piloto do jato teria relatado à torre de controle que a pista estava muito escorregadia.
Uma das hipóteses que vem ganhando força para explicar o acidente é, justamente, a falha no reversor, que ajuda na desaceleração do avião durante o pouso. Problema parecido com um Airbus aconteceu há 14 anos, durante um pouso de um avião da Lufthansa em Varsóvia, na Polônia. O equipamento demorou para ser acionado. A aeronave deslizou pela pista e acabou batendo em um barranco. Duas pessoas morreram.
Outro fator que pode ter contribuído para o maior acidente da história da aviação brasileira seria uma falha no sistema de pouso por instrumentos do aeroporto. Um comandante, com mais de 15 mil horas de vôo, que pousou dez minutos antes do acidente, disse ao portal Exame, que recebeu um aviso da torre de controle que o sistema, que facilita o processo de aterissagem – principalmente em condições climáticas adversas -, estava inoperante. “Não é raro que problemas como esses ocorram em Congonhas.”
Quando soube da falha, ele solicitou autorização para pousar na pista auxiliar, que tem o grooving (ranhuras feitas na pista para ajudar a água da chuva a escoar). O argumento é que, com chuva, diante de uma área menor para pouso, e na impossibilidade de ter o auxílio dos instrumentos, seria seguro aterrissar onde houvesse o grooving.

Dúvidas no ar sobre o vôo 3054

O avião estava acima da velocidade normal ao aterrissar?
O vídeo divulgado pela Infraero na quarta-feira, com imagens do vôo 3054 em alta velocidade na pista de Congonhas, não deixa isso claro. A operação deve ser feita entre 200 e 250 quilômetros por hora, segundo recomendações da Airbus. O que se sabe é que os últimos 300 metros foram percorridos em três segundos. Em condições normais, esse trajeto é feito entre dez e 15 segundos

Havia excesso de peso no avião?
O Airbus estava totalmente ocupado. 186 pessoas estavam no avião. A recomendação da fabricante é que a aeronave pouse com 65,4 toneladas. Segundo a TAM, a aeronave estava com aproximadamente 62,7 toneladas de peso ao tocar a pista

O avião pousou no local certo?
Investigações preliminares apontam que o Airbus pousou no lugar certo, ou seja, nos 300 metros iniciais da pista.

Os equipamentos falharam?
O sistema de checagem do avião detectou problemas no reversor (auxiliar do freio) da turbina direita na sexta. O equipamento foi desligado. A aeronave precisaria ir para a manutenção em até 10 dias, segundo procedimentos da Airbus. Na segunda, o mesmo avião teve problemas para pousar em Congonhas. O pouso sem o reversoré possível, mas é mais complicado em pistas curtas e em tempo chuvoso.

Havia excesso de água na pista?
Chovia muito na terça-feira em São Paulo. Quando a lamina d´água atinge três milímetros, as operações no aeroporto de Congonhas são suspensas. Alguns pilotos teriam reclamado à torre que a pista, recém-reformada, estava escorregadia. Nela, ainda precisa ser feito o grooving. A ausência não pode ser considerada uma causa.

O que o piloto fez para evitar o acidente?
O piloto teria tentado decolar de novo. Uma mureta de 30 centímetros na cabeceira do aeroporto foi quebrada em dois pontos, provavelmente pelas rodas traseiras do avião. Seria um sinal de que o piloto tentou decolar. É pouco provável que ele tenha tentado dar um cavalo-de-pau. Em alta velocidade, a manobra seria impraticável.

Se o piloto tentou arremeter, por que a tentativa fracassou?
A decisão pode ter sido tomada tarde demais. Outra hipótese é que, como a aeronave é totalmente informatizada, os computadores de bordo possam ter desobedecido a alguns comandos do piloto, por considerar que eles implicavam
alto risco. Segundo especialistas em aeronáutica, o Airbus 320 é um avião muito sofisticado e tem "vontade própria".

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Airbus confirma que avião podia voar sem reversor

Genebra

A Airbus confirma que, pelos padrões internacionais, um avião pode ser autorizado a voar sem que o reversor da turbina esteja em pleno funcionamento.
A empresa francesa recusa-se a declarar-se, oficialmente, sobre o caso e alerta que apenas se pronunciará quando as investigações estiverem concluídas. Mas fontes da companhia afirmam que a versão da TAM estaria correta ao defender o vôo, mesmo sem o funcionamento do equipamento.
Especialistas europeus também negam que a falta do reverso seja a causa principal do acidente e apontam que a TAM estava ainda dentro do prazo em que poderia usar o aparelho sem arrumar o defeito. A peça é usada para ajudar a frear o avião no pouso, mas, em caso de estar bloqueada, não significaria que o aparelho não poderia pousar, segundo os manuais da empresa.
Cinco técnicos foram enviados a São Paulo para ajudar nas apurações, assim como autoridades francesas. Pelas regras internacionais, um acidente aéreo deve ser investigado pelo país onde ocorreu o desastre, pelas autoridades da nação onde está a sede da construtora de aviões e pela empresa que o vendeu.

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Comandantes se negam a pousar

O nevoeiro em São Paulo e as restrições de pousos no aeroporto de Congonhas na manhã de ontem provocaram um efeito cascata em todo o País. Segundo a Infraero, 17 comandantes se recusaram a pousar em Congonhas com a neblina e tiveram de ser desviados, causando atrasos em outros aeroportos.
O Serviço Regional de Proteção ao Vôo de São Paulo informou que o teto de visibilidade, entre 6 horas e 9h28, era inferior a 500 pés. Por regra de segurança, abaixo desse teto não é permitido que as aeronaves da aviação comercial pousem, mesmo com os aparelhos de auxílio a aterrissagem funcionando. Caso quisessem arriscar, cada avião teria de estar homologado para descer com o equipamento e o comandante também teria de ter o treinamento para isso.
Só as aeronaves da aviação geral (jato executivo e táxi aéreo) poderiam tentar pousos.

Investimento - A América Latina é a região que menos investe em aeroportos no mundo e consegue destinar menos recursos ao setor aéreo que a África. A constatação faz parte de um estudo do Conselho Internacional de Aeroportos, com sede em Genebra, e que reúne 95% dos aeroportos mundiais. Segundo o levantamento, os países latino-americanos investiram US$ 1,2 bilhão em 2006 em aeroportos, contra mais de US$ 3,6 bilhões na África e quase US$ 17 bilhões no Canadá e Estados Unidos.

Pilotos - As deficiências na infra-estrutura do setor aéreo, em contraste com o crescimento de dois dígitos no fluxo de passageiros transportados, trazem mais um desafio para as companhias aéreas: especialistas temem a falta de pilotos, que poderia ocorrer em 2008. Segundo o Sindicato Nacional dos Aeronautas, só este ano as principais empresas aéreas nacionais devem acrescentar 34 aparelhos às frotas.

Atrasos - O movimento no aeroporto de Congonhas em São Paulo, continua crescente, assim como as filas no check-in das companhias. No balcão de check-in da Gol, por exemplo, os passageiros enfrentam longas filas, que chegam ao corredor que liga a área ao saguão central, onde é feito o embarque. Até as 18 horas de ontem, 74,6% dos vôos foram cancelados ou apresentaram atrasos. Segundo boletim da Infraero), das 209 partidas programadas, das 6 às 18 horas, 80 foram canceladas (38,2%).

"O País terá de escolher se prefere o impacto econômico ou o impacto de novos acidentes."
Márcio Schusterschitz, procurador da República, que pediu o fechamento do aeroporto de Congonhas

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Mais um passageiro

TAM confirmou ontem que Marcos Stepansky, que trabalhava como co-piloto da empresa, estava na aeronave, elevando para 191 o número de mortos

São Paulo

A TAM confirmou ontem o nome de mais uma vítima do acidente com o vôo 3054, elevando para 187 o número de pessoas que estavam no Airbus. Marcos Stepansky, que trabalhava como co-piloto da empresa, estava na aeronave.
Como ele era funcionário, não fez check-in nem usou cartão de embarque. Ele viajaria a São Paulo para fazer a última prova para poder ser co-piloto de um Airbus, como o que caiu na capital paulista. Assim, chega 191 o número de mortos no acidente.
O avô de Marcos, João Stepanski, que é piloto e foi diretor de operações da Varig entre 1975 e 1980, contou que o procedimento de embarque de pilotos sem o check-in é comum. O presidente da TAM, Marco Antônio Bologna, havia dito na quarta-feira que a lotação do avião era de 185 passageiros, mas que 186 pessoas estavam na aeronave por conta de um bebê que estava sentado no colo da mãe. Ele também afirmou que o avião estava abaixo do peso recomendado pela empresa fabricante. A Associação dos Tripulantes da TAM está acompanhando o caso.
A empresa informou que a aeronave levava 160 passageiros adultos, duas crianças de colo, seis tripulantes responsáveis pelo vôo e 19 funcionários e tripulantes não-operantes no vôo. A confirmação dos dados se dará a partir da identificação das vítimas pela Secretaria de Segurança Pública.
No começo da tarde de ontem, a secretaria informou que mais quatro vítimas foram identificadas pelo Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo. Com isso, sobe para 39 o número de vítimas já identificadas do acidente. Também no começo da tarde, o Corpo de Bombeiros informou que mais um corpo e cinco fragmentos foram retirados do edifício da TAM, o que eleva para 213 a contagem de sacolas retiradas do local.
Após o Corpo de Bombeiros divulgar 188 corpos resgatados, ele desistiu da contagem oficial e passou a responsabilidade para o IML. Agora, a contagem dos bombeiros é feita pelo número de sacolas com fragmentos de corpos enviados ao IML. O instituto terminou na quinta-feira a coleta de documentos e informações sobre as vítimas do vôo 3054.
Segundo o IML, 160 famílias foram ouvidas. Faltam apenas informações dos passageiros cujas famílias ainda não foram localizadas. As famílias que ainda não tiveram os corpos identificados terão de permanecer em SP para ajudar na identificação.

Identificados até agora

Roberto Ilson Weiss Junior
Marcello Rodrigues Palmieri
João Roberto Brito
Alanis Ura Dona Andrade
Anderson Luís Falleiro Cassel
Antonio C. Araújo de Souza
Caio Augusto Bueno Dalprat
Claudemir Buzzanelli Arriero
Deolinda Magaly V. da Fonseca
Fábio M. Novakoski Fernandes
Fernando Volpe Estato
Guilherme Duque de Moraes
Heurico Hirochi Tomita
Helen de Cássia Monteiro
Inês Maria Kleinowski
João Francisco Caltabiano
José Antonio Lima da Luz
José Antonio R. Santos Silva
José Luís Souto Pinto
Julio Cesar Redecker
Lina Barbosa Cassol
Luiz Antonio Rodrigues da Luz
Márcio Rogério Andrade
Melissa Ura
Michele Dias Miranda
Mireile Franciane Bettiol
Nelson Wiebbelling
Osvaldo Luiz de Souza
Paulo de Tarso D. da Silveira
Paulo Rogério Amoretty Souza
Peter Max Finzsch
Rafaella Bueno Dalprat
Roberto Gaviolli
Rosangela M. de Ávila Severo
Rubem Withaeuper
Silvânia Regina de Ávila Alves
Simone Lacerda Westrupp
Valdemarina B. de A. e Souza
Vitacir Paludo

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Encerrada busca em parte de prédio

 

Os oito bombeiros da equipe especializada de Busca e Reconhecimento em Estruturas Colapsadas (Brec) concluíram ontem os trabalhos de resgate de vítimas em uma parte do prédio da TAM Express, segundo informações da Secretaria de Segurança Pública.

Estrutura
Comissão técnica optou pela demolição total do prédio frontal da TAM Express, que ontem passou por perícia
Por conta disso, uma comissão – composta por peritos do Núcleo de Engenharia do Instituto de Criminalística, representantes da TAM, da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e da Secretaria Municipal de Transportes –optou pela demolição total do prédio frontal, sendo mantida somente a estrutura do prédio que fica na lateral esquerda, onde houve a queda das lajes.
A parte do prédio liberada é a que chega na Avenida Washington Luiz, próximo ao Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo. Os bombeiros terminaram os resgates nesta ala e liberaram, por volta das 11h30, o prédio para a polícia técnica, que faz uma perícia no local. Uma perícia técnica está sendo feita pelo Instituto de Criminalística e a demolição só ocorrerá após a devolução do prédio à TAM. Um dos fatores que contribui para a instabilidade do que restou do prédio da TAM Express é o surgimento freqüente de novos focos de incêndio.
As buscas continuam sendo feitas pelos 60 homens do Corpo de Bombeiros no prédio que fica atrás do posto de combustível e que foi atingido pelo avião, onde existe a possibilidade de serem encontradas outras vítimas. O trabalho de rescaldo é árduo e vem sendo realizado com o apoio de maquinário específico. Nenhum corpo ou fragmento foi retirado dos escombros nesta sexta. Ontem, os bombeiros também localizaram a cabine e a turbina direita do Airbus-A320.
Ontem também funcionários da TAM foram chamados e, no começo da manhã, retiraram computadores e demais objetos do prédio da empresa. O prédio está quase inteiramente destruído, mas, no fundo do andar térreo há um galpão de onde restaram peças e materiais que ainda podem ser aproveitados.
Supervisionados pelos bombeiros, os funcionários da empresa carregaram caminhões para levar a carga. Também foram recolhidos equipamentos e máquinas da loja de conveniência do posto atingido no desastre.
No começo da manhã, os andares mais danificados ainda continuavam queimando e a pista sentido centro-bairro da Avenida Washington Luís seguia interditada. Os bombeiros estudam como continuar com o trabalho de busca de corpos sem colocar em risco as equipes, já que a estrutura ameaça ceder.
Das 6 horas às 9h28 de ontem, o aeroporto de Congonhas operou por instrumentos para pousos, devido a uma forte neblina. Neste período, pousar ou não no terminal ficou a critério dos pilotos. Nenhum o fez. A maioria desviou seu trajeto para o aeroporto de Guarulhos (Grande São Paulo). Ao menos 12 pousos foram cancelados.

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Minutos de pânico dentro de aeronaves

Duas aeronaves tiveram problemas, para desespero dos passageiros ainda traumatizados com o acidente em Congonhas. Os 136 passageiros do vôo JJ 3892, da TAM, que iriam embarcar no começo da madrugada de ontem de Belém para Santarém e Manaus viveram trinta minutos de pânico quando o avião começou a apresentar problemas no trem de pouso e teve de retornar à capital paraense.
O vôo foi cancelado e todos conseguiram finalmente embarcar às 10h40. Os passageiros passaram a noite em um hotel pago pela TAM. "Já no momento da decolagem nós percebemos que havia dificuldades com o avião. Ele não conseguia ganhar altitude e começou a rodar em círculos", contou o representante comercial Anivaldo Antunes. Os passageiros começaram a ficar inquietos e a perguntar o que estava acontecendo.
Dez minutos depois, o piloto informou que havia um problema no trem de pouso e que iria ficar rodando até que a pista fosse liberada para pousar com segurança. O avião foi encaminhado para manutenção em um galpão da TAM.
Os 97 passageiros do vôo 1050 da BRA Transportes Aéreos, originário de São Paulo e com destino a Belém, também levaram um susto quando o avião fazia escala no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro Tom Jobim/Galeão, na quinta-feira. Eles tiveram a decolagem abortada ainda no solo, depois que uma ave entrou na turbina esquerda do aparelho. O grupo seguiu viagem somente ontem à tarde.

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O adeus à catarinense Simone

florianópolis

"Ela tinha planos. Planejava se casar, queria ter filhos." A frase é de Liana Linhares. Amiga desde a adolescência de Simone Lacerda Westrupp, Liana era uma entre as centenas de pessoas que foram ontem à tarde ao enterro da advogada, vítima da tragédia do vôo 3054, no cemitério Jardim da Paz, na Capital. E lamentava o destino de Simone. A última vez que elas se viram foi no casamento de uma amiga, há duas semanas. "A última imagem que tenho dela é uma Simone em festa, sorrindo e cheia de amigos em volta."
O choque da tragédia misturada à tristeza da perda era visível no velório. De família tradicional, as últimas homenagens contaram com a presença de políticos tradicionais da cidade e do Estado. A cerimônia foi dirigida pelo padre Vilson Groh, conhecido em Florianópolis por liderar movimentos sociais. "Simone tinha três qualidades marcantes. Era inteligente, sabia transformar conhecimento em saber de vida. Tinha uma profissão e era bem sucedida. Tinha garra, sabia fazer as pessoas caminharem." A cerimônia também foi conduzida pelo arcebispo da arquidiocese de Florianópolis, dom Murilo Krieger.
Abalados, os familiares ficaram próximos ao caixão fechado durante todo o velório. Sempre juntos estavam o pai Antônio Westrupp, a mãe Zue Lacerda Westrupp e o namorado de Simone, chamado por todos como Fifo. O irmão, Roberto Westrupp, lembrava de Simone como uma trabalhadora. "Parecia uma borboleta. Sempre batendo asas."
Essa é a segunda fatalidade na família envolvendo desastre aéreo. Em 1958, o avô de Simone e ex-governador Jorge Lacerda morreu na explosão de um avião, no Paraná.
O corpo da advogada chegou em Florianópolis ontem pela manhã e foi direto ao cemitério Jardim da Paz, no bairro Saco Grande. Simone tinha 28 anos. Era advogada do banco de investimentos Arsenal. Morava em São Paulo e chegava de uma viagem de trabalho a Porto Alegre. "Ela sempre foi muito feliz. Rimos muito juntas", lembrou a amiga de infância Marina Rupp.
O corpo da outra catarinense que estava no vôo não havia sido identificado até a noite de ontem. Cássia Negretto, 28, era comissária de bordo.

"Crescemos lado a lado. As famílias se conheciam. Fomos amigas confidentes, sempre juntas."
Marina Rupp, amiga de infância

"Nós a vimos semana passada. Ela visitou a família. Se despediu devagar de todos. E foi embora."
Roberto Westrupp, irmão da vítima

"Simone gostava de festa e de balada. A gente sempre se via em Florianópolis ou São Paulo."
Liana Linhares, amiga desde os 15 anos

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"Não precisa chorar, ela vai voltar"

Eles brincavam perto da lareira, em frente à televisão, quando as primeiras notícias sobre o desastre da TAM foram divulgadas, no início da noite de terça-feira. Os irmãos Eduarda, cinco anos, e Vinícius, sete anos, pareciam indiferentes à movimentação dos parentes, que tentavam disfarçar enquanto confirmavam se a mãe deles, a autônoma Eliane Soares Dornelles, 33 anos, estava realmente entre as vítimas.
Mas quando a certeza da tragédia fez o desespero tomar conta da casa, no bairro Anchieta, em Porto Alegre, os pequenos órfãos surpreenderam a todos. Eduarda levou um cartão ao ouvido e simulou uma ligação telefônica: "Mãe, volta logo. Tá todo mundo chorando por tua causa", pediu.
Quatro dias depois do acidente, Vinícius ainda se recusa a acreditar no que aconteceu. Em sua incredulidade, tenta consolar os mais de 30 familiares que se revezam para prestar assistência e carinho aos órfãos. "Não precisa chorar, ela já vai voltar. Ela só machucou a perna dela, vai chegar de muleta", repete.
De tão apegados, os dois sempre dormiam de mãos dadas com a mãe, um de cada lado. Naquela terça-feira, a autônoma havia embarcado no vôo das 17h16 apenas para levar uma encomenda para a empresa onde prestava serviços. Retornaria no mesmo dia, no vôo das 20h30, a tempo de manter o ritual cotidiano com os filhos. O pai de Eliane, José Carlos Dornelles, 54 anos, estava em SP a trabalho e a esperava no aeroporto de Congonhas, para voltarem juntos. Depois do acidente, a família teve poucos minutos de esperança. Dornelles assistiu à explosão e logo teve a certeza de que não haveria sobreviventes.
Na noite em que Eliane não voltou para casa, a caçula levou uma foto da mãe para a cama. Chorava, mas continuava surpreendendo a família. "Minha mãe mandou eu mamar e dormir", disse Eduarda, antes de deitar. No dia seguinte, ao ver o avô dando entrevista na televisão, com uma foto da mãe, foi a vez de Vinícius: "Viu como minha mãe não tá morta? Ela tá na televisão", insistia. Desnorteada, a família agora se desdobra para acolher, explicar, confortar os pequenos. Ao mesmo tempo em que enfrenta a angustiante espera pela identificação do corpo, os pais de Eliane fazem planos de se mudar. A casa onde moravam com a filha e os dois netos tem lembranças demais. Tantas que nem cabem na razão.

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Culto ecumênico homenageia vítimas do acidente

O culto ecumênico em homenagem às vítimas do acidente aéreo e seus familiares terminou com um momento de constrangimento. Ao fim do ato, realizado ontem no Aeroporto de Congonhas, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, acompanhado por representantes do judaísmo, xamanismo e budismo, entre outras religiões, iniciaram uma caminhada com cerca de 50 fiéis que assistiam ao culto para depositar flores junto aos escombros do acidente.
Mesmo com o pedido do presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Roberto Salvador Scaringella, a Polícia Militar impediu a aproximação dos fiéis, que chegaram a avançar poucos metros além do cordão de isolamento, mas foram obrigados a recuar, por motivos de segurança. Scaringella, que tinha acesso livre ao local do acidente, ofereceu-se para levar as flores e desceu até o lugar sozinho, acompanhado apenas por policiais militares. Durante a celebração, dom Odilo disse que o ato era uma manifestação de solidariedade de diversas comunidades religiosas às vítimas.



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