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OPERAÇÃO MOEDA
VERDE
O que dizem os relatórios
da PF
Primeiras conclusões
apontam para crimes ambientais e contra a administração
pública
Florianópolis
"Uma verdadeira quadrilha dedicada à prática
de crimes ambientais e crimes contra a administração
pública. Essa é uma das conclusões
da delegada Julia Vergara, da Polícia Federal (PF), após
analisar o material com gravações envolvendo os
suspeitos na Operação Moeda Verde.
Os detalhes que deram origem à operação
e levaram ao pedido de prisão de 22 suspeitos, além
dos bastidores da investigação, estão expostos
em 28 relatórios de quase mil páginas, aos quais
os repórteres João Cavallazzi e Felipe Pereira
tiveram acesso. Os documentos foram encaminhados à Justiça
Federal.
Na introdução dos relatórios, quando faz
um resumo de toda a apuração, a delegada registra
que o requerimento do Ministério Público
Federal (que deu origem às investigações)
teve por base os indícios de crime constatados na implantação
do empreendimento Il Campanario, em Jurerê Internacional,
pelo Grupo Habitasul. O que era para ser investigação
pontual, sobre apenas uma obra, transformou-se em uma ampla varredura
em empreendimentos já concluídos ou em andamento
na Ilha de Santa Catarina.
As ramificações do suposto esquema, segundo Julia,
atingem, principalmente, a Fundação Estadual do
Meio Ambiente (Fatma), a Fundação Municipal do
Meio Ambiente (Floram), a Câmara de Vereadores e a Secretaria
de Urbanismo e Serviços Públicos (Susp). De acordo
com a policial, a outra ponta do esquema é ocupada
por empresários ou por pessoas físicas interessadas
em promover construções. Todos os envolvidos
negam participação em irregularidades. Até
ontem, dos 30 malotes apreendidos pela PF, 16 haviam sido analisados
pela perícia. O inquérito deve ser concluído
no fim de junho. Depois, o documento segue para o Ministério
Público Federal (MPF), que pode denunciar ou não
os suspeitos. Qualquer que seja o resultado do julgamento da
Justiça Federal, cabe recurso ao Tribunal Regional Federal
(TRF).
Nos relatórios, o vereador Juarez Silveira é apontado
pela polícia como chefe do suposto esquema.
Ele aparece em quase todas as investigações, aparentemente
sempre intermediando algum tipo de favor ou ajuda.
Nos relatórios do caso Shopping Iguatemi, do Hospital
Vita e do Supermercado Bistek, estão as conversas que,
para a PF, são mais comprometedoras. Nessas e em outras
interceptações, o vereador aparece solicitando
carros emprestados, negociando veículos e publicação
de lei, falando em dinheiro.
Nas gravações em vídeo, os alvos são
André Luiz Dadam, funcionário afastado da Fatma,
e o vereador Juarez. Dadam é flagrado saindo com R$ 8
mil em dinheiro da sede do Grupo Habitasul, em Jurerê Internacional,
antes das eleições de 2006.
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As conclusões*
Caso Habitasul
"Nas gravações organizadas neste caso, encontra-se
a intenção do Grupo Habitasul em agir contrariamente
às normas ambientais, sempre com vistas à obtenção
de lucro no loteamento Jurerê Internacional. Fernando Tadeu,
um dos diretores do Grupo Habitasul em Porto Alegre, disse a
Hélio Chevarria (representante do grupo em Florianópolis)
que a loja maçônica a ser construída em Jurerê
Internacional deveria ser colocada em APP, ou seja: Área
de Preservação Permanente, porque assim não
perderiam terreno. Em uma das conversas, Chevarria diz que está
'há anos mudando o Plano Diretor' para a escola (Colégio
Energia)."
Relatório Habitasul e Juarez Silveira
"Esse trecho trata da relação entre a Habitasul,
Juarez Silveira, Renato Juceli, ex-secretário da Susp,
e Rubens Bazzo, funcionário da Susp. De acordo com os
áudios, a Habitasul, por meio de Hélio Chevarria,
liberou para Juarez Silveira a quantia de R$ 20 mil para supostas
obras de reforma da Susp. O valor foi recebido na Habitasul pelo
chefe de gabinete de Juarez, Itanoir Cláudio. Em outra
parte, a delegada destaca que 'em outro áudio, Juarez
diz a Péricles Druck (dono da Habitasul) que ninguém
mudará o Plano Diretor se não for ele, e que Péricles
tem que lhe 'dar a linha do que quer e que aí Juarez
vai até o inferno com aquela postura."
Caso Il Campanario
"Com relação ao empreendimento IL Campanario,
foi realizada perícia pela PF concluindo que há
área de restinga, de água subterrânea e presença
de dunas no local do empreendimento e, ainda, que o curso dágua
existente foi aterrado para a implementação do
empreendimento. As licenças expedidas pela Fatma para
o empreendimento em questão foram assinadas por André
Luiz Dadam."
Caso Energia
"Em conversa com servidor do Ipuf, Rubens Bazzo diz que
está com o processo da Escola Energia em Jurerê
Internacional, mas que só pode deferir se a substituição
da 4ª Etapa de Jurerê Internacional estiver aprovada,
dizendo que 'eles fizeram a substituição da quarta
etapa baseada naquela lei nova, que modificou tudo ali' (possivelmente
uma lei criada sob encomenda da Habitasul) e, a seguir, Bazzo
diz: Eu vou aprovar essa escola aqui e depois que se f...
Porque nós já deferimos a substituição
aqui (...) Em conversa com Fábio Filippon, enteado
de Percy Haensch e diretor do Grupo Energia, Hélio sugere
que sejam colocadas placas no local de obras do Energia: Licença
de corte número tal, entendeu? Pra ir dando... né?
Pra ir dando a legalidade."
Caso Shopping Iguatemi
"Os áudios interceptados revelaram a rede de relacionamentos
(e de favores) de que se valeu Paulo Cezar Maciel da Silva, empreendedor
do Shopping Iguatemi. Paulo Cezar contou com a colaboração
da Prefeitura, mas, principalmente, a de Juarez Silveira. Ele
teria sido, no caso do Shopping Iguatemi, uma espécie
de Marcílio Ávila no caso do Shopping Florianópolis,
entretanto, com uma vantagem: a de contar com um cunhado seu
como secretário municipal. Para tanto, abriu portas nos
órgãos pelos quais tramitaram processos para a
obtenção das licenças necessárias.
Em contrapartida, Juarez, seus parentes e seu chefe de gabinete
teriam recebido facilidades nas concessionárias de veículos
de Paulo Cezar."
Caso Bistek
"A tramitação dos processos para a aprovação
da instalação do supermercado Bistek, em Florianópolis,
no bairro Costeira do Pirajubaé, contou com os serviços
de Juarez, que determinou a Renato Juceli de Souza: Então,
tu trata ele bem aí, esse caso, tu trata bem!. Os
áudios indicam ter havido votação de projeto
de lei de interesse do Grupo Bistek possivelmente versando
sobre alteração no Plano Diretor."
Caso Hospital Vita
"As gravações revelam movimentação
na Câmara de Vereadores da Capital com vistas a possibilitar
o empreendimento. Após ser concretizada alteração
legislativa viabilizando o empreendimento, Juarez Silveira entra
em contato com um dos empreendedores, Gilson Junckes, indagando
se já pode passar no Dimas (revenda de carros). Juarez
recebe o sinal verde para retirar veículo no setor de
usados do Dimas num crédito de R$ 50 mil. Juarez escolhe
um Ford Ecosport, o qual é, posteriormente, deixado para
venda na Santa Fé (de Paulo Cezar)."
Dos possíveis crimes
As gravações analisadas indicam possíveis
crimes contra a flora, contra a administração ambiental,
formação de quadrilha, corrupção
passiva, tráfico de influência e corrupção
ativa.
* O conteúdo acima foi extraído dos relatórios
encaminhados ao juiz Zenildo Bodnar pela delegada Julia Vergara
da Silva, documentação que serviu de base para
os pedidos de prisão temporária dos 22 suspeitos.
Delegada Julia Vergara, da Polícia Federal, comanda
as investigações
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Trechos de diálogos*
hospital Vita
Juarez telefona para Gilson Junckes (Hospital Vita) e pergunta
se pode passar na concessionária Dimas (Ford).
Juarez Já posso passar lá na Dimas?
Gilson Junckes A hora que sair a publicação,
aí tu pega a autorização comigo e pega lá
com ele.
Juarez Não, mas aí vai demorar, porra!
Gilson Não, ô Juarez, mas assim ó:
tu sabes que já teve problema de percurso aí, as
coisas mudaram e eu preferia assim, ó! Eu também
tenho pressa dessa publicação porque eu também
tô precisando pegar a viabilidade pra poder pegar o alvará,
entendesse? E assim ó: não depende só de
mim, tu sabe disso, e... eles tão me cobrando lá
de São Paulo, direto: como é que tá, como
é que tá, eu tô: essa semana sai, essa semana
sai e não tá saindo!
Juarez Não, mas já tá no Diário
Oficial, né?
Gilson Eu sei, mas tem que tá publicado pra poder...
Juarez Mas o JB já não te deu uma declaração,
ontem? (referindo-se ao vereador João Batista Nunes)
Gilson Mas com essa declaração eu não
consigo, não consigo fazer nada!
Juarez Não, tudo bem. Não, entra com a consulta
de viabilidade, tá?
Gilson Então tá bom! Eu entro com a consulta
de viabilidade hoje e tu...
Juarez Entra e me dá a cópia. Esse assunto
é comigo!
Obs: Segundo a PF, a lei a que se referem é a
Lei Complementar Municipal 250/2006, que alterou o zoneamento
do bairro Santa Mônica, caracterizando o local de implantação
do Hospital como ACI-III Área Comunitária
Institucional, na modalidade Áreas de Saúde, Assistência
Social e Culto Religioso.
supermercado Bistek
Trata da construção de uma filial da empresa Bistek
Supermercado Ltda., de propriedade de João Carlos Ghislandi,
Walter Ghislandi e Mário Cesar Ghislandi, na Costeira
do Pirajabué.
Juarez Alô?
João Ah, bom-dia, rapaz! A respeito da nossa votação,
ocorreu?
Juarez Tudo 10!
João Tudo 10?
Juarez Tá? Deu tudo 10 e agora nós vamos
botar no Diário Oficial. O prefeito já passa a
caneta, e vai para o Diário Oficial! Mas, não tem
mais coisa...
João Mas isso é um processo rápido,
né?
Juarez Não, é rápido, é rápido!
Agora não, agora dá pra tocar. Pode começar
a tocar, agora vai ter o número do processo já!
João Ahm, ahm!
Juarez Amanhã. Hoje à tarde vai pra Prefeitura,
o prefeito dá o número, com este número
de lei eu já mando pra Susp, tá?
João Certo!
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As defesas
O que dizem os citados pela Polícia
Federal
Habitasul A assessoria de imprensa de Jurerê
Internacional, em Florianópolis, após consultar
o departamento jurídico da empresa, informou que os
exemplos mencionados são trechos pinçados de conversas
telefônicas que foram utilizadas totalmente fora do contexto
em que ocorreram. O objetivo delas seria suportar a versão
da polícia para fins de garantir medidas cautelares, tais
como prisões provisórias. Mas não representam
punição ou antecipação de juízo.
Sobre a loja maçônica, a iniciativa não prosperou.
Supermercado Bistek O diretor Comercial do Supermercado
Bistek, Walter Ghislandi, disse que a empresa é testemunha
no caso e revelou que, hoje, um dos diretores vai à Polícia
Federal prestar depoimento.
Gilson Junckes Júlio Müller, advogado de
defesa, afirmou que o carro foi emprestado para o vereador durante
a campanha eleitoral. Ele disse que aguarda a conclusão
das investigações para saber se haverá ação
penal contra o cliente. Só então poderá
se decidir sobre quais medidas adotar.
Rubens Bazzo De acordo com Acácio Maciel Marçal,
advogado de defesa, não há acusação
formal e, por isso, ele não vai se manifestar. Ele disse,
também, que não tem autorização do
cliente para falar.
Marcelo Vieira Nascimento A defesa do funcionário
da Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis
(Floram) aguarda o relatório final da Polícia Federal.
O advogado Iran Wosgraus disse que só então poderá
avaliar que medidas tomar.
Juarez Silveira O advogado Rodrigo Silva afirmou que
o cliente não cometeu nenhum ato ilícito e disse
que não vai comentar o as gravações porque
o processo corre em segredo de Justiça.
Paulo Cezar Maciel de Souza O advogado Alexandre Brito
de Araújo, que defende o sócio-proprietário
do Shopping Iguatemi, preferiu não se manifestar. Ele
disse que não é possível analisar apenas
trechos de conversas e só poderia emitir opinião
depois de analisar o contexto.
Renato Joceli de Souza O advogado Cláudio Gastão
da Rosa Filho disse que é difícil se manifestar
sobre gravações de processos em segredos de Justiça.
Ele afirmou que uma tentativa de explicar o conteúdo das
interceptações seria prejudicada porque as conversas
ocorreram há quase um ano e o interlocutor não
foi identificado. No entanto, o advogado garantiu que Renato
Juceli nunca recebeu dinheiro além do salário de
secretário de Urbanismo e Serviços Públicos
(Susp). Rosa Filho afirmou, ainda, que os bens do cliente são
compatíveis com os rendimentos.
Dimas Um gerente, que não quis se identificar,
não sabe de nenhuma negociação com Gilson
Junckes.
Dário Berger O secretário de comunicação
da Prefeitura, Ariel Bottaro Filho, afirmou que Dário
Berger usou um carro particular durante a campanha do ano passado.
Dário teria usado um carro (Ômega) de Paulo Cezar.
Itanoir Cláudio O advogado de defesa, Constâncio
Krummel Maciel Neto, afirmou que o cliente é inocente.
Ele não quis fazer outros comentários porque o
processo está na fase de investigação.
Percy Haensch Conforme o advogado de defesa, Orídio
Domingos Mendes Júnior, o dono do Colégio Energia
não aparece em nenhuma degravação pagando
ou sendo cobrado por pessoas envolvidas com o suposto esquema
de comercialização de licenças. O advogado
disse desconhecer as gravações contra o cliente.
André Luiz Dadam O advogado Marcelo Mello não
quis se manifestar porque o processo corre em segredo de Justiça,
mas afirmou que o cliente é inocente. |