|
Conflito entre homem e animal
Peça Olhos de
Touro, que retrata antagonismos por meio da figura mitológica
do Minotauro abre turnê por 15 cidades de Santa Catarina
Florianópolis
O Minotauro, figura híbrida, meio homem, meio touro,
ser solitário que sintetiza a intersecção
de duas naturezas, é o personagem de Olhos de Touro,
peça que combina teatro, dança e música
em turnê por quinze cidades catarinenses.
Márcia Lusalva é quem encarna a alma do bicho em
apresentação produzida pela Cia Márcia Duarte,
de Brasília. No palco, Lusalva está sozinha, mas
nos bastidores, divide a pesquisa e criação com
a outra Márcia, a Duarte, que dirige o espetáculo.
As duas estudaram as touradas espanholas e montaram a peça
com o objetivo de refletir sobre o confronto do homem e do animal
a partir da figura mitológica do Minotauro. Em cena, a
simbologia do homem-touro personifica antagonismos humanos como
inteligência e força, instinto e razão, homem
e animal.
A idéia das duas Márcias em trabalhar com o tema
surgiu em 1998, quando elas leram o poema Pranto por Ignácio
Sanchez Mejia, de Gabriel Garcia Lorca. Nos versos, o poeta
elabora com densidade a morte na arena do renomado toureiro espanhol.
No palco, Lusalva veste uma saia com desenho inspirado na calça
do toureiro, com cintura larga e alta. O figurino, de Alessandro
Brandão, é predominantemente preto e vermelho.
O vermelho representa o sangue. O preto é a morte,
diz Márcia Duarte.
Com duração de 50 minutos, uma das cenas que mais
chama a atenção é feita com cabos de fogo.
A cenografia é de Marcos Pedroso (diretor de arte dos
filmes Estação Carandiriru, Madame
Satã, eBicho de Sete Cabeças)
e iluminação de Guilherme Bonfanti, premiado pelos
trabalhos com a Companhia de Teatro da Vertigem, de São
Paulo.
A turnê por cidades catarinense faz parte da segunda etapa
no Estado em 2007 do Projeto Palco Giratório, do Sesc.
Em Florianópolis e Concórdia, também são
oferecidas oficinas cênicas. Neste final de semana, Olhos
de Touro foi apresentado em Chapecó e em Xanxerê.
O projeto Palco Giratório foi criado pelo Departamento
Nacional do Sesc há 10 anos com o objetivo de difundir
e descentralizar as artes cênicas no Brasil. A iniciativa
se transformou em uma das ações culturais mais
importantes do país, oferecendo produções
teatrais de qualidade a preços reduzidos para uma público
fora dos grandes centros.
Agende-se
Chapecó - Apresentado em 16 de junho
Xanxerê - Apresentado em 17 de junho
Concórdia - Hoje, 19 horas - Teatro Municipal Maria Luiza
de Mattos
Lages - Quinta-feira, às 20h - Teatro Marajoara (entrada
franca)
Rio do Sul - Sexta-feira, às 20 horas - Fundação
Cultural de Rio do Sul
Jaraguá do Sul - Sábado, às 20 horas - Pavilhão
B Municipal de Eventos/Centro de Convivência
Joinville - Domingo, às 20 horas - Teatro da Cidadela
Cultural Antártica
Blumenau - 25 de junho, 19 horas - Auditório Carlos Jardim
Brusque - 26 de junho, às 20 horas - Teatro da Unifebe
Itajaí - 27 de junho, às 20 horas - Teatro Municipal
de Itajaí
Criciúma - 29 de junho, às 20 horas - Teatro Elias
Angeloni.
Tubarão - 30 de junho - Local e horário a confirmar
- Informações: (48) 3626-0146
Laguna - 1o de julho, às 17 horas - Centro Cultural Santo
Antonio dos Anjos
São José - 2 de julho, às 20 horas - Teatro
Centro Multiuso
Florianópolis - 3 de julho, às 20 horas - Teatro
Sesc Prainha
Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 para comerciários, estudantes,
menores de 18 e maiores de 60 anos.
Oficinas:
Concórdia
Hoje, das 8 às 12h e das 13 às 17 horas
Sala de Dança da Fundação Municipal de Cultura
Preço: R$ 25,00
Informações: (49) 3442-0303
Florianópolis
3 de julho
Sesc Prainha
Preço e horário a confirmar.
Informações: (48) 3229-2200
....................................................
O retorno
A ex-Spice Girl Melanie C, conhecida como Sport Spice, concedeu
entrevista à emissora britânica BBC sobre o cogitado
retorno da banda aos palcos. Segundo ela, a volta seria como
uma despedida com sabor de gratidão a seus fãs.
_______________________________
Polêmica
Irã condena concessão
de título
O governo iraniano condenou ontem como caso de "islamofobia"
a condecoração concedida pela rainha Elizabeth
II, da Inglaterra, ao escritor Salman Rushdie. Ele foi condenado
à morte pelo Irã, em 1989, por seu livro "Versos
Satânicos".
_______________________________
Novo Álbum
Britney convida fãs a escolherem
título
Britney Spears pediu ajuda aos fãs para escolher o
nome de seu novo álbum. A votação vai ocorrer
no site www.britneyspears.com. Os fãs vão optar
entre os títulos: "Omg is Like Lindsay Lohan Like
Okay Like", "What if the Joke is on You", "Down
Boy", "Integrity e Dignity".
_______________________________
Audiovisual
O Brasil pequeno na tela grande
Circuito itinerante de filmes
exibe em Santa Catarina produções feitas em cidades
com até 20 mil habitantes
As cidades têm, no máximo, 20 mil habitantes,
não têm shopping center, todos se conhecem e muitos
nunca entraram em uma sala de cinema. São essas singularidades
que fazem das pequenas cidades do Brasil um bom material de inspiração
para a realização de 40 vídeos digitais,
patrocinados pelo projeto Revelando os Brasis, e
que chegou em Santa Catarina ontem, na cidade de Paulo Lopes.
Hoje o ciclo estará em Florianópolis, amanhã
em Antônio Carlos e, nesta quarta-feira, realiza sua última
exibição no Estado em Urussanga.
O projeto patrocinado pela Petrobras começou no dia 24
de maio, em Muqui (ES), e, quando terminar o circuito, terá
percorrido 25 mil quilômetros e 61 cidades brasileiras
em apenas dois meses. As exibições são,
na verdade, um retorno do que a própria cidade produziu.
Os vídeos foram produzidos por habitantes locais e que,
mesmo distantes de um centro produtor de cinema, sabem contar
uma boa história.
As Gêmeas de Paulo Lopes, exibido ontem em
Paulo Lopes, abriu a programação estadual após
a caravana ter percorrido Minas Gerais, Rio de Janeiro, São
Paulo e Paraná. Mata...Céu...e negros
foi o vídeo criado em Antônio Carlos e Edilamar,
o de Urussanga. Todos serão apresentados em todas as cidades
do circuito, além da Capital, e também irão
assistir a um making-off do projeto. Após as sessões,
será realizada uma pesquisa para avaliar o envolvimento
das comunidades com o projeto e a recepção dos
vídeos pelos moradores. Estamos concluindo um ciclo
com o retorno dos vídeos às cidades, mas com a
proposta de também obter informações que
levem a novos desdobramentos e possibilidades de produção,
explica a produtora Beatriz Lindenberg, diretora do Instituto
Marlin Azul, parceiro do projeto.
Após o circuito, os vídeos serão disponibilizados
para exibições não-comerciais, exibidos
no programa Revelando os Brasis, no Canal Futura
e participarão em festivais de cinema. O DVD do projeto
terá distribuição gratuita em bibliotecas
públicas e secretarias de Cultura e Educação.
Em sua primeira edição, Revelando os Brasis
foi uma alternativa criada para democratizar o acesso aos meios
de produção audiovisual de cidades pequenas. O
projeto começou com um Concurso Nacional de Histórias
destinado somente a moradores de municípios que tivessem
até 20 mil habitantes um número significativo,
já que, das cinco mil cidades brasileiras, mais de quatro
mil se enquadram nessa categoria. Histórias reais ou ficção,
os habitantes enviaram seus textos e quarenta deles foram selecionados.
Os autores participam de oficinas preparatórias de roteiro,
direção, produção, fotografia, som,
edição, direção de arte, mobilização
e direitos autorais.
Na etapa seguinte, os selecionados colocam em prática
o que aprenderam, retornando às suas cidades para transformar
as histórias em vídeos digitais de até 15
minutos de duração. Familiares, amigos, vizinhos
e artistas locais são estimulados a integrar as equipes,
desempenhando funções artísticas. Para o
secretário do Audiovisual, Orlando Senna, o retorno das
produções às cidades de origem de seus realizadores
é um encontro com forte carga simbólica. O
Circuito de Exibição é o momento em que
a obra ganha sentido e se completa. É o encontro da narrativa
com seus personagens reais, um momento de reconhecimento daquela
comunidade, afirma.
Agenda
Hoje - Florianópolis - Mercado Público Municipal,
Centro, às 18h30
Amanhã - Antônio Carlos - Praça Anchieta,
às 19h30
Quarta-feira - Urussanga - Praça Anita Garibaldi, às
19h30
_______________________________
Exposição
Repoentes
reúne universos distintos
As criações, que à primeira vista parecem
seres esquisitos, aos poucos remetem a figuras do ambiente campesino
e interiorano onde o artista foi criado, em São Gabriel
(RS). Na obra de Chagas, as peças, de características
rurais, fundem-se ao universo urbano e humano, o que proporciona
inúmeras interpretações entre o que é
real ou imaginário.
Para familiarizar-se às 12 peças, o artista explica
a origem da palavra repontes pertencente ao folclore gaúcho
que remete à cena clássica da tropa sumindo
no horizonte. Ou seja, repontar é ficar atrás da
tropa, levando o que ficou para trás.
As obras não têm denominações e combinam
os elementos masculino (ferro) e feminino (porongo). Posicionadas
em círculos, transmitem a sensação de interação
entre si. O primeiro, masculino forte, é trabalhado e
se torna resistente e pesado.
Para marcar o contraponto, Chagas fez o uso do porongo, que tem
simbologia própria e revela a dicotomia: o universo feminino.
A combinação está vinculada à cultura
gaúcha, que tem representada no porongo o seio moreno,
algo que trás alimento não para o corpo, mas para
a alma.
Onde: Galeria de Artes da Fundação Cultural
de Criciúma/FCC. Rua Cel. Pedro Benedet, Centro, Criciúma.
Quando: até dia 30 de julho. Visitação:
das 12h30min às 18h30min. Ingressos: entrada gratuita
_______________________________
Crônica
Da arte de sentir o mar
Suzana Mafra, escritora
suzanamafra@terra.com.br
Da primeira vez que viu o mar abriu os braços. Menina
pequena e frágil. Ele era maior que tudo. Até do
que os arranha-céus. Mais alto. Quase sentiu medo. Que
força é esta à minha frente? Por que o mar
não escapole pelos lados se tanta altura e líquido?
Aos poucos foi se acostumando com o barulho-encanto. Brincou
na areia extensa com um graveto: desenhos para Deus. Nem chegou
a molhar os pés na água, estava de conga branca
e nova. Foi por acaso que viu o mar pela primeira vez. Brincava
na casa de uma coleguinha mais rica. Os pais dela convidaram:
vamos dar uma volta na praia? Foram e levaram a amiguinha da
filha junto. Um marulho em tons azuláceos inundou os sentidos
da pequena para sempre.
Da outra vez foram de ônibus. Ficariam na casa de uma vizinha.
As crianças tontearam durante a viagem. Uma vomitou na
mulher com jeito de bruxa que se ofereceu para levá-la
ao colo. As unhas vermelhas e compridas da mulher apertando sua
frágil barriguinha. Nunca antes aceitara o colo de uma
estranha. Algumas perguntas necessárias: por que a vizinha
comprou uma casa tão longe da praia se há tantas
mais perto? Por que enfileiram prédios um ao lado do outro
para esconder o mar? O primeiro banho foi nas canelas. Deitar
o corpinho na praia e sentir a areia tocar a pele pela primeira
vez. Tantas coisas pela primeira vez.
Eis que um dia, finalmente, alguém da família aluga
uma casa na praia. Numa outra praia, ainda sem prédios.
Num dia de muito sol subiram numa encosta para melhor avistar
o mar. Dois dos maiores desceram próximos da arrebentação
e sentaram numa das pedras. Ficaram algum tempo em desafio. Depois
subiram, indo se juntar aos outros. Por questão de segundos
não acontece uma desgraça: uma onda imensa varreu
a pedra de antes. Um susto. Brotaram perguntas em vez primeira:
o que existe antes e depois de mim, o que fui, o que serei? Ninguém
soube responder. As ondas iam e vinham.
Tão fácil nadar, é só bater braços
e pernas. Difícil foi perder o medo e soltar o corpo.
O medo é pesado, afunda. Vamos ver quem chega primeiro
nadando em tal lugar? Quando cansavam, boiavam, riam, olhavam
o céu, contavam nuvens. Até as barrigas roncarem
ou alguém gritar da praia seus nomes. Havia apenas um
chuveiro e muitos para o banho. Corriam, pois quem chegasse antes...
Tão divertido viver.
O mergulho: no litoral do Nordeste, aluga o equipamento (snorkel,
máscara e nadadeiras). No início, é preciso
se acostumar ao respiro pela boca. Aos poucos, o corpo se adapta
ao ritmo marinho. Existe a possibilidade de nadar com famílias
de peixinhos coloridos, ver cavalos-marinhos, e, dentro e fora
de tudo, ouvir um som ou silêncio parecido com aquele primeiro
da infância, do primeiro sentir o mar, ou seria do primeiro
sentir no feto? Pensava nisso quando se viu deslizando por sobre
uma raia imensa. Surpresa e júbilo.
_______________________________
Múltipla
Exposição
Maratona de fotos na Capital
A Fundação Cultural de Florianópolis
Franklin Cascaes (FCFFC) e Beiramar Shopping abrem hoje, às
19 horas, a exposição 13ª Maratona Fotográfica
de Florianópolis. A edição contou
com a participação de 273 pessoas. A categoria
registro em filme totalizou 80 inscritos e a digital, 193. A
Maratona Fotográfica consiste numa espécie de gincana
na qual cada um dos participantes recebe 24 proposições
temáticas, distribuídas a cada seis horas. Cada
tema deve resultar numa única imagem, que não poderá
estar fora da ordem apresentada na hora da entrega da tarefa.
Cada tema deve ser fotografado uma única vez, e na ordem
anunciada. O evento, que valoriza os profissionais e os admiradores
da fotografia, foi implantado com o objetivo de ampliar o acervo
iconográfico da paisagem urbana de Florianópolis.
_______________________________
Universo Feminino
Laços que prevalecem
Cristiane Schmitz
O antropólogo Luiz Marins, autor do livro Socorram-me
dos Meus Parentes!, definiu desta maneira o sentimento
de rivalidade entre irmãos: A grande diferença
da guerra entre irmãos e irmãs é que, realmente,
por alguma razão misteriosa, o ódio se mistura
com puro amor. Assim, ele tenta explicar que não
há maneira de não amar um irmão. Só
quem tem irmãos consegue entender como funciona esse curioso
amor fraterno.
Sentimento
Por alguma razão misteriosa, o ódio se mistura
ao amor na guerra entre irmãos, diz o antropólogo
Luiz Marins |
Samara,
Samanta, Sabrina e Sara são quatro irmãs (quase)
iguais. As quadrigêmeas que completam 14 anos hoje são
assim, uma a cara da outra, mas quando o assunto é personalidade,
é bem mais fácil saber quem é quem.
Elas, que nasceram em Joinville e até hoje chamam atenção
na rua quando andam juntas chegaram à adolescência,
período em que os gostos de cada uma ficam mais aguçados,
e respeitar o espaço alheio é questão de
segurança nacional. Mas a vida simples e a
mesma idade ajudou a criar um elo solidário entre todas.
Elas dividem as roupas e o mesmo quarto e todas estudam no mesmo
colégio. Duas dormem em cada cama e, na hora de dormir,
é uma bagunça, porque elas querem contar uma a
outra tudo o que aconteceu no dia. Meu pai tem até
que mandar a gente dormir, senão a gente não pára,
comenta uma das irmãs.
A primeira impressão quando todas estão juntas
é que não há nenhuma forma de diferenciá-las
a não ser pela roupa. Eu sempre consigo saber quem
é quem, garante a mãe, Rosimara. Quando chega
a hora de falar, é mais fácil perceber que cada
uma delas é diferente e especial.
Sara se considera a mais exigente e organizada de todas e também
é a mais silenciosa. Mesmo mais discreta, acredita que
consegue fazer mais amigos do que as irmãs. As crianças
gostam de mim porque eu sou mais calminha.
Já Sabrina e Samanta são as mais briguentas. Elas
vivem arrumando confusão no colégio, denunciam
Sara e Samara. Apesar da acusação de a mais estourada
das quatro, Sabrina se defende dizendo que é a que mais
ajuda a mãe em casa. Sempre sobra para mim."
Em casa, a mais desorganizada é Samara, que também
acabou repetindo de ano duas vezes. Enquanto ela está
na sexta série, as outras irmãs já estão
na oitava. Onde você vê tem roupa dela,
denuncia Sabrina. Mas eu sou uma pessoa legal, se
auto-avalia, apesar da bagunça. Quando o negócio
é contar segredos, Sabrina e Samanta são as mais
confidentes uma da outra.
A mãe, Rosimara, tem muito orgulho das filhas, mas admite
que, com a chegada da adolescência, precisa fazer muito
malabarismo com o pouco dinheiro que recebem. O marido é
servente de pedreiro, e Rosimara perdeu o emprego no final do
ano passado. São quatro moças. Imagina comprar
sutiã, roupa, material de escola para todas elas,
comenta.
Nas poucas vezes que passeiam juntas, as meninas dificilmente
vão ao shopping e passeiam mais pelas redondezas do bairro
onde moram. Nunca vão sozinhas, até porque o pai
não deixa. O pai morre de ciúmes delas. Quando
pergunto se alguma delas já está namorando, todas
riem e se olham", revela a mãe.
cristiane.schmitz@an.com.br
....................................................
Irmã sol, irmã lua
A psicoterapeuta Márcia Homem de Mello lembra que os
filhos são seres individuais e têm necessidades
diferentes, que variam conforme o temperamento e até a
idade. Daí que normalmente surgem as brigas, pois cada
um quer mostrar o seu ponto de vista. É importante
para o desenvolvimento da criança, porque ela aprende
a viver em sociedade e a perdoar, já que brigam, e na
maioria das vezes, cinco minutos depois, o acontecimento foi
esquecido. Ensinar a negociar entre eles é uma boa solução
para amenizar os conflitos, escreveu em seu artigo Como
educar, criar, cuidar, enfim, preparar a relação
dos irmãos?.
Conflito
As brigas com o irmão ajudam a criança a crescer,
ensinam ela a negociar, perdoar e a viver melhor em sociedade |
De
uma família de treze irmãos dez são
mulheres todo mundo poderia achar que na casa de Maria
da Luz, 46, e de sua irmã, Maria Clarisse, 43, a vida
era uma guerra. Nosso pai não permitia brigas,
recorda a irmã bibliotecária, no que Clarisse concorda.
Meu pai era severo quanto a isso, justifica a professora.
Como moravam em sítio, todos precisavam ajudar e tinham
uma obrigação. Agradeço muito a educação
do meu pai. A gente tinha hora de ajudar e hora de brincar e
a gente aprendeu a se respeitar muito, avalia hoje Clarisse.
Quando éramos crianças nunca tivemos grandes
desentendimentos. Tínhamos personalidades diferentes,
mas éramos mais solidários uns com os outros,
acredita Da Luz. Já Clarisse, que é a caçula
dos 13 filhos, admite que havia algumas brigas, mas considera
o fato bem normal na infância. A gente nunca brigava
na frente do nosso pai, era meio escondidinho. Mas nunca foi
nada sério, coisa de criança, define Clarisse.
Maria Da Luz é bibliotecária e trabalha no período
da tarde e noite. Maria Clarisse é professora de educação
física e trabalha de manhã e de tarde. Durante
a semana, é quase impossível encontrar as duas
juntas, mas quase todos os finais de semana as duas irmãs
se visitam, até porque, nos últimos três
anos, acharam um motivo a mais.
O nascimento de Maria Clara, de três anos e filha de Clarisse,
foi responsável por uma aproximação maior
das duas irmãs, até porque Maria Da Luz foi escolhida
para ser a madrinha. Maria Clara é a última neta
de uma família que possui 33 e é
muito apegada à tia. Se a Maria Clara está
com ela, é como se estivesse comigo, elogia a mãe
Clarisse. Da Luz acredita que o nascimento da sobrinha ajudou
muito em uma aproximação entre irmãs, apesar
de que elas sempre tiveram um bom relacionamento. Eu e
Clarisse temos personalidades diferentes, até divergências
de opinião, mas isso nunca impediu até de morarmos
juntas, conta Da Luz. A gente dividia tudo, até
consórcio de carro, recorda Clarisse.
Mesmo depois da morte dos pais, os 13 irmãos mantiveram
a casa em Mafra, onde viviam, justamente para a reunião
da família. Tentamos nos reunir ao menos uma vez
por ano, diz Clarisse, mas, segundo ela, apenas os irmãos,
para discutir as obrigações de cada um. Os
cunhados às vezes não compreendem, mas isso é
coisa de irmão.
Coisas de irmão
Certas situações chatas vividas entre irmãos
podem ser evitadas se você tiver um pouco de paciência.
O livro Como Sobreviver em Família (Editora
Rocco, 156 páginas), de Catherine Mathelin e Bernadette
Costa-Prades, curiosamente destinado a crianças e adolescentes
e não aos pais, dá dicas de como reverter algumas
situações que, para os pais, podem não ser
nada, mas para as crianças são o fim do mundo.
Meus pais preferem meu irmão ou minha irmã...
Resposta: Tem certeza de que você não está
imaginando coisas? Às vezes, pensamos mesmo que somos
menos amados porque sempre queremos um pouco mais de atenção.
Lembre-se que você chegou em outro momento da vida de seus
pais e ocupa uma posição que é só
sua. É como se existisse um bolo para cada filho, um pode
ser doce e o outro, salgado. Cada um tem gostos diferentes.
Vivo brigando com meu irmão e minha irmã mais
velhos
Resposta: Relaxe! Isso é apenas uma crise de ciúmes.
Explique a seus pais que ter ciúme dos mais velhos também
pode acontecer. Percebe-se que os mais velhos têm direitos
de fazer um monte de coisas que os mais novos ainda não
podem fazer. Que tal levar em conta as vantagens de ter aquele
irmão ou aquela irmã em vez de vê-los somente
como um rival?
Minha irmã mais velha me irrita. Ela quer mandar em
tudo!
Resposta: É preciso também entender que nem sempre
foi fácil para ela, afinal, você pode ter invadido
um terreno que antes era só dela. Escolha seu pai ou sua
mãe para conversar. Refira-se precisamente aos motivos
de sua irritação. Algumas vezes, uma irmã
mais velha aborrece apenas por ser maior, por ter mais liberdade
do que você tem agora, mas que terá mais tarde.
Entre os filhos, dar ordens uns para os outros normalmente é
uma furada. O papel cabe aos pais e aos adultos em geral.
Minha irmãzinha faz tudo o que eu faço...
Isso quer dizer: primeiro, ela tem vontade de crescer; segundo,
que ela o admira. Ela só tem o desejo de estar em pé
de igualdade com você, e cabe a você ser indulgente.
Por isso, tenha um pouco de paciência, pois os pequenos
sempre acabam achando as próprias atividades e, uma hora,
deixarão você em paz.
....................................................
Cada uma na sua
No artigo Ciúme e Rivalidade entre irmãos,
da psicóloga Luciana Aguiar, a autora descreve o sentimento
de rivalidade como parte de uma configuração familiar,
mas sempre num jogo ambivalente de sentimentos. O fundamental
para que as crianças vivenciem isso de uma forma mais
tranqüila e que não venha a ser um problema, é
algo bem anterior à própria chegada dos irmãos:
é a qualidade da relação que a criança
já estabelece com os pais, escreve.
Q
Ciúmes
Qualidade da relação da criança com os pais
evita sentimento exagerado de rivalidade dela com irmão
recém-nascido |
uando
Micheli era um bebê, Vanessa recorda ter derrubado a irmã
do carrinho. O incidente foi, na verdade, uma manifestação
um pouco atrapalhada de carinho e não de
ciúme, como a maioria pode pensar. Eu nem me lembro
disso, conta Micheli Reddin, 18 anos. Apesar de Vanessa
ser cinco anos mais velha do que a irmã, a convivência
sempre foi calma e de muito respeito. Eu comecei a namorar
cedo, aos 16 anos. Quando ela começou a sair, ficou mais
difícil sairmos juntas, justifica Vanessa Reddin,
de 22.
Não há problemas em emprestar blusas e sapatos
desde que, é claro, a interessada avise do empréstimo.
Os poucos programas que ainda fazem juntas é assistir
filmes em casa e, quando Vanessa quer uma trança no cabelo,
é Micheli quem faz. Eu não sei fazer trança
em mim, ri Vanessa. Raramente vão ao shopping juntas,
um programa que faziam quando eram mais novas. Voltando um pouco
mais no tempo, lembram que uma das brincadeiras mas recorrentes
era maquiar uma a outra. Brincar de bonecas era um bom programa
para a Micheli, que poderia ficar horas sozinha com suas bonecas.
Ela ficava tão quietinha que minha mãe achava
que ela estava dormindo, recorda a irmã mais velha.
Enquanto Vanessa gosta de pagode, fala um monte
opinião da Micheli e se preocupa com contas e com
a família, Micheli curte mais pop/rock, se veste mais
despojada e é mais reservada. Para Vanessa, a irmã
que se veste mais séria, Micheli é
uma pessoa extremamente dedicada aos estudos. Ela é
muito persistente no que faz, sempre estudou muito, admite
Vanessa.
_______________________________
_______________________________
Relacionamento
Alberto Goldin, psicanalista
goldin@oglobo.com.br
Acordos de um casamento moderno
Aos 15 anos, vi meus pais se separarem numa ação
litigiosa. Minha mãe sempre foi muito dura, só
me aproximei dela após a separação. Tenho
45 anos e sou casada há 25 com Rubens. Nosso relacionamento
foi fundado em uma amizade de muitos anos. O casamento sempre
teve compreensão, cumplicidade e união. Temos uma
filha. Descobri, no fim do ano passado, que o Rubens mantinha
encontros com homens, marcados através da internet. Segundo
ele, ninguém desconfia dessa preferência. Antes,
fizemos terapia de casal e a terapeuta disse que existia amor,
que só precisávamos aparar as arestas. Há
dois anos não temos relações sexuais. Vivemos
como irmãos. Tenho medo de dar um basta nessa situação.
Minha filha cobra uma atitude. Minha psicóloga e meu psiquiatra
me ajudam muito, mas estou arrasada e me pergunto: por que isso
aconteceu comigo? Marta.
* * *
Juntos, eles fabricaram 25 anos de história, até
o dia em que a Marta, por acaso, foi surpreendida pela presença
indesejável de alguns fantasmas masculinos em torno do
Rubens, que, segundo sua própria confissão, admitiu
visitá-los com alguma freqüência. Como é
lógico, essa descoberta mudou a sua vida, e Marta pede
ajuda. Precisa entender e decidir seu destino.
A reação mais esperada e simples seria expulsar
sumariamente o Rubens, o que seria relativamente fácil.
A dificuldade viria mais tarde, quando a infelicidade presente
fosse apagando as horas felizes do passado. Neste caso, o Rubens,
sob o impacto da ruptura, sairia de casa, montaria seu apartamento
e seus fantasmas, agora sem barreiras, poderiam se fazer presentes
e oficiais. Problema resolvido...
Ainda assim, a Marta tem dúvidas, e nos pergunta se existem
outras alternativas. De imediato, respondemos que sim, sempre
há, só que para identificá-las será
necessário compreender melhor as motivações
do Rubens.
Um homem que marca encontros sexuais com outros homens é
homossexual. Seu casamento com a Marta lhe permite argumentar
alguma bissexualidade, ainda que modificar sua qualificação
não mude em nada as circunstâncias. Os desejos sexuais
do Rubens, como os de qualquer ser humano, são inexoráveis:
nem os fabricou de propósito nem poderá apagá-los
só porque não coincidem com seu estado civil. Seus
verdadeiros fantasmas não são os encontros de internet,
mas a homossexualidade com a qual certamente conviveu durante
toda a sua vida.
Se o Rubens verdadeiramente merece castigo por seus
desejos, também merece um prêmio por suportá-los
em silêncio durante décadas. Milhares de homens
e mulheres estão nessa situação e sofrem
porque não se enquadram nas suas próprias expectativas
sociais. Creio, em função dos dados disponíveis,
que a homossexualidade do Rubens não o impediu de amar
a Marta. Não poderia fingir afeto e amizade durante tantos
anos. Creio que realmente prefere estar casado, ainda que uma
grande parte da sua vida só possa se manifestar fora da
sua casa.
Aí entra a internet, resolvendo o paradoxo de permitir
relações sexuais exclusivamente sexuais, sem nenhuma
relação humana. Concluímos que esses episódios
fizeram com que tudo mudasse para a Marta. Acabou o mistério
e, se aceitar o desafio de permanecer casada, terá que
assumir a parte mais difícil da história: compreender
e aceitar (ou não) sua nova situação. O
dado favorável é que o novo Rubens já não
tem segredos, é mais confiável e torna possível
que, pela primeira vez, seja estabelecido um diálogo sincero.
O sexo em casa continuará ausente, porém a Marta
terá condições de discutir e negociar algumas
questões delicadas e jamais abordadas. Referimo-nos a
acordos mútuos de liberdade ou fidelidade, direito e privacidade,
futuros relacionamentos etc.
Assim, o luto de um final de casamento poderá se alternar
com o entusiasmo de uma nova relação, menos convencional
e em bases mais complexas, porém mais verdadeiras. Se
conseguirem um acordo, terão um casamento moderno, no
qual ambos poderão desfrutar do amor e da amizade antigos,
ou, no pior dos casos, se nada disso for possível, terão
direito a uma separação à moda antiga, com
hostilidade, advogados, lembranças e fantasmas.
_______________________________
Sexo e Saúde
Mitos sobre a gravidez
O médico Jairo Bouer escreve neste espaço
todas as segundas-feiras
jbouer@uol.com.br
Queria saber se urinar logo depois do garoto gozar dentro
da vagina pode evitar a gravidez?
Se eu ejacular no banheiro e o esperma descer pelo ralo
do chuveiro, mas ficar algum restinho preso e, depois, uma mulher
conseguir pegar e colocar dentro da vagina, ela pode engravidar?
Meu pênis produziu lubrificação, minha
namorada passou a mão nele e limpou na blusa. Logo em
seguida colocou a mesma mão na vagina. Ela pode engravidar?
* * *
Todas as dúvidas desta semana têm um ponto em
comum: o verdadeiro pânico dos casais em enfrentar uma
gravidez indesejada. E como prevenir é sempre o melhor
remédio, vamos tentar esclarecer dúvidas e desfazer
mitos.
O maior risco de gravidez ocorre quando há uma relação
sexual completa (pênis na vagina), o garoto ejacula dentro
do corpo da garota e o casal não usa nenhum método
de proteção (nem camisinha, nem pílula,
nem nada). Nessa situação, se a garota está
no seu período fértil, os especialistas dizem que
o risco de engravidar pode chegar a quase 20%. Bastante alto,
não é mesmo?
Em uma relação sexual desprotegida em que o garoto
não ejacula, o risco de gravidez é bem menor, mas
ele pode existir. Isso porque, mesmo na lubrificação
do pênis, pode haver espermatozóides que são
liberados antes do momento da ejaculação. Outra
forma possível: se o garoto ejacular na mão da
garota e ela, logo em seguida, colocar os dedos na vagina, ela
pode fazer um transporte direto de espermatozóides e ficar
em situação de risco.
Tirando essas situações, o risco de engravidar
é bastante improvável. Assim, espermatozóides
presos no ralo, mão que encosta apenas na lubrificação,
sentar em um vaso sanitário de banheiro público,
tomar banho em uma banheira em que um garoto ejaculou horas antes,
entrar na piscina do motel, entre outras situações
já recebidas aqui na coluna, não parecem ser ameaças
reais.
É sempre bom lembrar que medidas básicas de higiene
e saúde são ótimas aliadas. Por exemplo,
lavar as mãos depois de momentos mais íntimos é
fundamental. Tomar banho depois do sexo também é
uma boa idéia.
Mas não vamos confundir higiene com mitos e lendas: urinar
depois de fazer sexo sem proteção, ficar de cabeça
para baixo, lavar a vagina com refrigerante, colocar o chuveirinho
dentro da vagina, nada disso é capaz de evitar uma gravidez.
Esses métodos são furados. Poucos segundos depois
da ejaculação, os espermatozóides já
estão no útero Por isso é fundamental se
prevenir e usar camisinha e algum tipo de método anticoncepcional. |