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Joinville Segunda-Feira, 18 de junho de 2007 Santa Catarina - Brasil

Anexo - A Notícia

Conflito entre homem e animal

Peça “Olhos de Touro”, que retrata antagonismos por meio da figura mitológica do Minotauro abre turnê por 15 cidades de Santa Catarina

Florianópolis

O Minotauro, figura híbrida, meio homem, meio touro, ser solitário que sintetiza a intersecção de duas naturezas, é o personagem de “Olhos de Touro”, peça que combina teatro, dança e música em turnê por quinze cidades catarinenses.
Márcia Lusalva é quem encarna a alma do bicho em apresentação produzida pela Cia Márcia Duarte, de Brasília. No palco, Lusalva está sozinha, mas nos bastidores, divide a pesquisa e criação com a outra Márcia, a Duarte, que dirige o espetáculo.
As duas estudaram as touradas espanholas e montaram a peça com o objetivo de refletir sobre o confronto do homem e do animal a partir da figura mitológica do Minotauro. Em cena, a simbologia do homem-touro personifica antagonismos humanos como inteligência e força, instinto e razão, homem e animal.
A idéia das duas Márcias em trabalhar com o tema surgiu em 1998, quando elas leram o poema “Pranto por Ignácio Sanchez Mejia”, de Gabriel Garcia Lorca. Nos versos, o poeta elabora com densidade a morte na arena do renomado toureiro espanhol.
No palco, Lusalva veste uma saia com desenho inspirado na calça do toureiro, com cintura larga e alta. O figurino, de Alessandro Brandão, é predominantemente preto e vermelho. “O vermelho representa o sangue. O preto é a morte”, diz Márcia Duarte.
Com duração de 50 minutos, uma das cenas que mais chama a atenção é feita com cabos de fogo. A cenografia é de Marcos Pedroso (diretor de arte dos filmes “Estação Carandiriru”, “Madame Satã”, e”Bicho de Sete Cabeças”) e iluminação de Guilherme Bonfanti, premiado pelos trabalhos com a Companhia de Teatro da Vertigem, de São Paulo.
A turnê por cidades catarinense faz parte da segunda etapa no Estado em 2007 do Projeto Palco Giratório, do Sesc. Em Florianópolis e Concórdia, também são oferecidas oficinas cênicas. Neste final de semana, “Olhos de Touro” foi apresentado em Chapecó e em Xanxerê.
O projeto Palco Giratório foi criado pelo Departamento Nacional do Sesc há 10 anos com o objetivo de difundir e descentralizar as artes cênicas no Brasil. A iniciativa se transformou em uma das ações culturais mais importantes do país, oferecendo produções teatrais de qualidade a preços reduzidos para uma público fora dos grandes centros.

Agende-se
Chapecó - Apresentado em 16 de junho
Xanxerê - Apresentado em 17 de junho
Concórdia - Hoje, 19 horas - Teatro Municipal Maria Luiza de Mattos
Lages - Quinta-feira, às 20h - Teatro Marajoara (entrada franca)
Rio do Sul - Sexta-feira, às 20 horas - Fundação Cultural de Rio do Sul
Jaraguá do Sul - Sábado, às 20 horas - Pavilhão B Municipal de Eventos/Centro de Convivência
Joinville - Domingo, às 20 horas - Teatro da Cidadela Cultural Antártica
Blumenau - 25 de junho, 19 horas - Auditório Carlos Jardim
Brusque - 26 de junho, às 20 horas - Teatro da Unifebe
Itajaí - 27 de junho, às 20 horas - Teatro Municipal de Itajaí
Criciúma - 29 de junho, às 20 horas - Teatro Elias Angeloni.
Tubarão - 30 de junho - Local e horário a confirmar - Informações: (48) 3626-0146
Laguna - 1o de julho, às 17 horas - Centro Cultural Santo Antonio dos Anjos
São José - 2 de julho, às 20 horas - Teatro Centro Multiuso
Florianópolis - 3 de julho, às 20 horas - Teatro Sesc Prainha
Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 para comerciários, estudantes, menores de 18 e maiores de 60 anos.

Oficinas:

Concórdia
Hoje, das 8 às 12h e das 13 às 17 horas
Sala de Dança da Fundação Municipal de Cultura
Preço: R$ 25,00
Informações: (49) 3442-0303

Florianópolis
3 de julho
Sesc Prainha
Preço e horário a confirmar.
Informações: (48) 3229-2200

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O retorno

A ex-Spice Girl Melanie C, conhecida como Sport Spice, concedeu entrevista à emissora britânica BBC sobre o cogitado retorno da banda aos palcos. Segundo ela, a volta seria como uma despedida com sabor de gratidão a seus fãs.

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Polêmica

Irã condena concessão de título

O governo iraniano condenou ontem como caso de "islamofobia" a condecoração concedida pela rainha Elizabeth II, da Inglaterra, ao escritor Salman Rushdie. Ele foi condenado à morte pelo Irã, em 1989, por seu livro "Versos Satânicos".

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Novo Álbum

Britney convida fãs a escolherem título

Britney Spears pediu ajuda aos fãs para escolher o nome de seu novo álbum. A votação vai ocorrer no site www.britneyspears.com. Os fãs vão optar entre os títulos: "Omg is Like Lindsay Lohan Like Okay Like", "What if the Joke is on You", "Down Boy", "Integrity e Dignity".

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Audiovisual

O Brasil pequeno na tela grande

Circuito itinerante de filmes exibe em Santa Catarina produções feitas em cidades com até 20 mil habitantes

As cidades têm, no máximo, 20 mil habitantes, não têm shopping center, todos se conhecem e muitos nunca entraram em uma sala de cinema. São essas singularidades que fazem das pequenas cidades do Brasil um bom material de inspiração para a realização de 40 vídeos digitais, patrocinados pelo projeto “Revelando os Brasis”, e que chegou em Santa Catarina ontem, na cidade de Paulo Lopes. Hoje o ciclo estará em Florianópolis, amanhã em Antônio Carlos e, nesta quarta-feira, realiza sua última exibição no Estado em Urussanga.
O projeto patrocinado pela Petrobras começou no dia 24 de maio, em Muqui (ES), e, quando terminar o circuito, terá percorrido 25 mil quilômetros e 61 cidades brasileiras em apenas dois meses. As exibições são, na verdade, um retorno do que a própria cidade produziu. Os vídeos foram produzidos por habitantes locais e que, mesmo distantes de um centro produtor de cinema, sabem contar uma boa história.
“As Gêmeas de Paulo Lopes”, exibido ontem em Paulo Lopes, abriu a programação estadual após a caravana ter percorrido Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. “Mata...Céu...e negros” foi o vídeo criado em Antônio Carlos e “Edilamar”, o de Urussanga. Todos serão apresentados em todas as cidades do circuito, além da Capital, e também irão assistir a um making-off do projeto. Após as sessões, será realizada uma pesquisa para avaliar o envolvimento das comunidades com o projeto e a recepção dos vídeos pelos moradores. “Estamos concluindo um ciclo com o retorno dos vídeos às cidades, mas com a proposta de também obter informações que levem a novos desdobramentos e possibilidades de produção”, explica a produtora Beatriz Lindenberg, diretora do Instituto Marlin Azul, parceiro do projeto.
Após o circuito, os vídeos serão disponibilizados para exibições não-comerciais, exibidos no programa “Revelando os Brasis”, no Canal Futura e participarão em festivais de cinema. O DVD do projeto terá distribuição gratuita em bibliotecas públicas e secretarias de Cultura e Educação.
Em sua primeira edição, “Revelando os Brasis” foi uma alternativa criada para democratizar o acesso aos meios de produção audiovisual de cidades pequenas. O projeto começou com um Concurso Nacional de Histórias destinado somente a moradores de municípios que tivessem até 20 mil habitantes – um número significativo, já que, das cinco mil cidades brasileiras, mais de quatro mil se enquadram nessa categoria. Histórias reais ou ficção, os habitantes enviaram seus textos e quarenta deles foram selecionados. Os autores participam de oficinas preparatórias de roteiro, direção, produção, fotografia, som, edição, direção de arte, mobilização e direitos autorais.
Na etapa seguinte, os selecionados colocam em prática o que aprenderam, retornando às suas cidades para transformar as histórias em vídeos digitais de até 15 minutos de duração. Familiares, amigos, vizinhos e artistas locais são estimulados a integrar as equipes, desempenhando funções artísticas. Para o secretário do Audiovisual, Orlando Senna, o retorno das produções às cidades de origem de seus realizadores é um encontro com forte carga simbólica. “O Circuito de Exibição é o momento em que a obra ganha sentido e se completa. É o encontro da narrativa com seus personagens reais, um momento de reconhecimento daquela comunidade”, afirma.

Agenda

Hoje - Florianópolis - Mercado Público Municipal, Centro, às 18h30
Amanhã - Antônio Carlos - Praça Anchieta, às 19h30
Quarta-feira - Urussanga - Praça Anita Garibaldi, às 19h30

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Exposição

“Repoentes” reúne universos distintos

As criações, que à primeira vista parecem seres esquisitos, aos poucos remetem a figuras do ambiente campesino e interiorano onde o artista foi criado, em São Gabriel (RS). Na obra de Chagas, as peças, de características rurais, fundem-se ao universo urbano e humano, o que proporciona inúmeras interpretações entre o que é real ou imaginário.
Para familiarizar-se às 12 peças, o artista explica a origem da palavra repontes – pertencente ao folclore gaúcho – que remete à cena clássica da tropa sumindo no horizonte. Ou seja, repontar é ficar atrás da tropa, levando o que ficou para trás.
As obras não têm denominações e combinam os elementos masculino (ferro) e feminino (porongo). Posicionadas em círculos, transmitem a sensação de interação entre si. O primeiro, masculino forte, é trabalhado e se torna resistente e pesado.
Para marcar o contraponto, Chagas fez o uso do porongo, que tem simbologia própria e revela a dicotomia: o universo feminino. A combinação está vinculada à cultura gaúcha, que tem representada no porongo o seio moreno, algo que trás alimento não para o corpo, mas para a alma.

Onde: Galeria de Artes da Fundação Cultural de Criciúma/FCC. Rua Cel. Pedro Benedet, Centro, Criciúma. Quando: até dia 30 de julho. Visitação: das 12h30min às 18h30min. Ingressos: entrada gratuita

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Crônica

Da arte de sentir o mar

Suzana Mafra, escritora
suzanamafra@terra.com.br

Da primeira vez que viu o mar abriu os braços. Menina pequena e frágil. Ele era maior que tudo. Até do que os arranha-céus. Mais alto. Quase sentiu medo. Que força é esta à minha frente? Por que o mar não escapole pelos lados se tanta altura e líquido? Aos poucos foi se acostumando com o barulho-encanto. Brincou na areia extensa com um graveto: desenhos para Deus. Nem chegou a molhar os pés na água, estava de conga branca e nova. Foi por acaso que viu o mar pela primeira vez. Brincava na casa de uma coleguinha mais rica. Os pais dela convidaram: vamos dar uma volta na praia? Foram e levaram a amiguinha da filha junto. Um marulho em tons azuláceos inundou os sentidos da pequena para sempre.
Da outra vez foram de ônibus. Ficariam na casa de uma vizinha. As crianças tontearam durante a viagem. Uma vomitou na mulher com jeito de bruxa que se ofereceu para levá-la ao colo. As unhas vermelhas e compridas da mulher apertando sua frágil barriguinha. Nunca antes aceitara o colo de uma estranha. Algumas perguntas necessárias: por que a vizinha comprou uma casa tão longe da praia se há tantas mais perto? Por que enfileiram prédios um ao lado do outro para esconder o mar? O primeiro banho foi nas canelas. Deitar o corpinho na praia e sentir a areia tocar a pele pela primeira vez. Tantas coisas pela primeira vez.
Eis que um dia, finalmente, alguém da família aluga uma casa na praia. Numa outra praia, ainda sem prédios. Num dia de muito sol subiram numa encosta para melhor avistar o mar. Dois dos maiores desceram próximos da arrebentação e sentaram numa das pedras. Ficaram algum tempo em desafio. Depois subiram, indo se juntar aos outros. Por questão de segundos não acontece uma desgraça: uma onda imensa varreu a pedra de antes. Um susto. Brotaram perguntas em vez primeira: o que existe antes e depois de mim, o que fui, o que serei? Ninguém soube responder. As ondas iam e vinham.
Tão fácil nadar, é só bater braços e pernas. Difícil foi perder o medo e soltar o corpo. O medo é pesado, afunda. Vamos ver quem chega primeiro nadando em tal lugar? Quando cansavam, boiavam, riam, olhavam o céu, contavam nuvens. Até as barrigas roncarem ou alguém gritar da praia seus nomes. Havia apenas um chuveiro e muitos para o banho. Corriam, pois quem chegasse antes... Tão divertido viver.
O mergulho: no litoral do Nordeste, aluga o equipamento (snorkel, máscara e nadadeiras). No início, é preciso se acostumar ao respiro pela boca. Aos poucos, o corpo se adapta ao ritmo marinho. Existe a possibilidade de nadar com famílias de peixinhos coloridos, ver cavalos-marinhos, e, dentro e fora de tudo, ouvir um som ou silêncio parecido com aquele primeiro da infância, do primeiro sentir o mar, ou seria do primeiro sentir no feto? Pensava nisso quando se viu deslizando por sobre uma raia imensa. Surpresa e júbilo.

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Múltipla

Exposição

Maratona de fotos na Capital

A Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes (FCFFC) e Beiramar Shopping abrem hoje, às 19 horas, a exposição “13ª Maratona Fotográfica de Florianópolis”. A edição contou com a participação de 273 pessoas. A categoria registro em filme totalizou 80 inscritos e a digital, 193. A Maratona Fotográfica consiste numa espécie de gincana na qual cada um dos participantes recebe 24 proposições temáticas, distribuídas a cada seis horas. Cada tema deve resultar numa única imagem, que não poderá estar fora da ordem apresentada na hora da entrega da tarefa. Cada tema deve ser fotografado uma única vez, e na ordem anunciada. O evento, que valoriza os profissionais e os admiradores da fotografia, foi implantado com o objetivo de ampliar o acervo iconográfico da paisagem urbana de Florianópolis.

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Universo Feminino

Laços que prevalecem

Cristiane Schmitz

O antropólogo Luiz Marins, autor do livro “Socorram-me dos Meus Parentes!”, definiu desta maneira o sentimento de rivalidade entre irmãos: “A grande diferença da guerra entre irmãos e irmãs é que, realmente, por alguma razão misteriosa, o ódio se mistura com puro amor.” Assim, ele tenta explicar que não há maneira de não amar um irmão. Só quem tem irmãos consegue entender como funciona esse curioso amor fraterno.

Sentimento
Por alguma razão misteriosa, o ódio se mistura ao amor na guerra entre irmãos, diz o antropólogo Luiz Marins
Samara, Samanta, Sabrina e Sara são quatro irmãs (quase) iguais. As quadrigêmeas que completam 14 anos hoje são assim, uma a cara da outra, mas quando o assunto é personalidade, é bem mais fácil saber quem é quem.
Elas, que nasceram em Joinville e até hoje chamam atenção na rua quando andam juntas chegaram à adolescência, período em que os gostos de cada uma ficam mais aguçados, e respeitar o espaço alheio é questão de “segurança nacional”. Mas a vida simples e a mesma idade ajudou a criar um elo solidário entre todas. Elas dividem as roupas e o mesmo quarto e todas estudam no mesmo colégio. Duas dormem em cada cama e, na hora de dormir, é uma bagunça, porque elas querem contar uma a outra tudo o que aconteceu no dia. “Meu pai tem até que mandar a gente dormir, senão a gente não pára”, comenta uma das irmãs.
A primeira impressão quando todas estão juntas é que não há nenhuma forma de diferenciá-las a não ser pela roupa. “Eu sempre consigo saber quem é quem”, garante a mãe, Rosimara. Quando chega a hora de falar, é mais fácil perceber que cada uma delas é diferente e especial.
Sara se considera a mais exigente e organizada de todas e também é a mais silenciosa. Mesmo mais discreta, acredita que consegue fazer mais amigos do que as irmãs. “As crianças gostam de mim porque eu sou mais calminha.”
Já Sabrina e Samanta são as mais briguentas. “Elas vivem arrumando confusão no colégio”, denunciam Sara e Samara. Apesar da acusação de a mais estourada das quatro, Sabrina se defende dizendo que é a que mais ajuda a mãe em casa. “Sempre sobra para mim."
Em casa, a mais desorganizada é Samara, que também acabou repetindo de ano duas vezes. Enquanto ela está na sexta série, as outras irmãs já estão na oitava. “Onde você vê tem roupa dela”, denuncia Sabrina. “Mas eu sou uma pessoa legal”, se auto-avalia, apesar da bagunça. Quando o negócio é contar segredos, Sabrina e Samanta são as mais confidentes uma da outra.
A mãe, Rosimara, tem muito orgulho das filhas, mas admite que, com a chegada da adolescência, precisa fazer muito malabarismo com o pouco dinheiro que recebem. O marido é servente de pedreiro, e Rosimara perdeu o emprego no final do ano passado. “São quatro moças. Imagina comprar sutiã, roupa, material de escola para todas elas”, comenta.
Nas poucas vezes que passeiam juntas, as meninas dificilmente vão ao shopping e passeiam mais pelas redondezas do bairro onde moram. Nunca vão sozinhas, até porque o pai não deixa. “O pai morre de ciúmes delas. Quando pergunto se alguma delas já está namorando, todas riem e se olham", revela a mãe.

cristiane.schmitz@an.com.br

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Irmã sol, irmã lua

A psicoterapeuta Márcia Homem de Mello lembra que os filhos são seres individuais e têm necessidades diferentes, que variam conforme o temperamento e até a idade. Daí que normalmente surgem as brigas, pois cada um quer mostrar o seu ponto de vista. “É importante para o desenvolvimento da criança, porque ela aprende a viver em sociedade e a perdoar, já que brigam, e na maioria das vezes, cinco minutos depois, o acontecimento foi esquecido. Ensinar a negociar entre eles é uma boa solução para amenizar os conflitos”, escreveu em seu artigo “Como educar, criar, cuidar, enfim, preparar a relação dos irmãos?”.

Conflito
As brigas com o irmão ajudam a criança a crescer, ensinam ela a negociar, perdoar e a viver melhor em sociedade
De uma família de treze irmãos – dez são mulheres – todo mundo poderia achar que na casa de Maria da Luz, 46, e de sua irmã, Maria Clarisse, 43, a vida era uma guerra. “Nosso pai não permitia brigas”, recorda a irmã bibliotecária, no que Clarisse concorda. “Meu pai era severo quanto a isso”, justifica a professora. Como moravam em sítio, todos precisavam ajudar e tinham uma obrigação. “Agradeço muito a educação do meu pai. A gente tinha hora de ajudar e hora de brincar e a gente aprendeu a se respeitar muito”, avalia hoje Clarisse.
“Quando éramos crianças nunca tivemos grandes desentendimentos. Tínhamos personalidades diferentes, mas éramos mais solidários uns com os outros”, acredita Da Luz. Já Clarisse, que é a caçula dos 13 filhos, admite que havia algumas brigas, mas considera o fato bem normal na infância. “A gente nunca brigava na frente do nosso pai, era meio escondidinho. Mas nunca foi nada sério, coisa de criança”, define Clarisse.
Maria Da Luz é bibliotecária e trabalha no período da tarde e noite. Maria Clarisse é professora de educação física e trabalha de manhã e de tarde. Durante a semana, é quase impossível encontrar as duas juntas, mas quase todos os finais de semana as duas irmãs se visitam, até porque, nos últimos três anos, acharam um motivo a mais.
O nascimento de Maria Clara, de três anos e filha de Clarisse, foi responsável por uma aproximação maior das duas irmãs, até porque Maria Da Luz foi escolhida para ser a madrinha. Maria Clara é a última neta – de uma família que possui 33 – e é muito apegada à tia. “Se a Maria Clara está com ela, é como se estivesse comigo”, elogia a mãe Clarisse. Da Luz acredita que o nascimento da sobrinha ajudou muito em uma aproximação entre irmãs, apesar de que elas sempre tiveram um bom relacionamento. “Eu e Clarisse temos personalidades diferentes, até divergências de opinião, mas isso nunca impediu até de morarmos juntas”, conta Da Luz. “A gente dividia tudo, até consórcio de carro”, recorda Clarisse.
Mesmo depois da morte dos pais, os 13 irmãos mantiveram a casa em Mafra, onde viviam, justamente para a reunião da família. “Tentamos nos reunir ao menos uma vez por ano”, diz Clarisse, mas, segundo ela, apenas os irmãos, para discutir as obrigações de cada um. “Os cunhados às vezes não compreendem, mas isso é coisa de irmão.”

Coisas de irmão

Certas situações chatas vividas entre irmãos podem ser evitadas se você tiver um pouco de paciência. O livro “Como Sobreviver em Família” (Editora Rocco, 156 páginas), de Catherine Mathelin e Bernadette Costa-Prades, curiosamente destinado a crianças e adolescentes e não aos pais, dá dicas de como reverter algumas situações que, para os pais, podem não ser nada, mas para as crianças são o fim do mundo.

Meus pais preferem meu irmão ou minha irmã...
Resposta: Tem certeza de que você não está imaginando coisas? Às vezes, pensamos mesmo que somos menos amados porque sempre queremos um pouco mais de atenção. Lembre-se que você chegou em outro momento da vida de seus pais e ocupa uma posição que é só sua. É como se existisse um bolo para cada filho, um pode ser doce e o outro, salgado. Cada um tem gostos diferentes.

Vivo brigando com meu irmão e minha irmã mais velhos
Resposta: Relaxe! Isso é apenas uma crise de ciúmes. Explique a seus pais que ter ciúme dos mais velhos também pode acontecer. Percebe-se que os mais velhos têm direitos de fazer um monte de coisas que os mais novos ainda não podem fazer. Que tal levar em conta as vantagens de ter aquele irmão ou aquela irmã em vez de vê-los somente como um rival?

Minha irmã mais velha me irrita. Ela quer mandar em tudo!
Resposta: É preciso também entender que nem sempre foi fácil para ela, afinal, você pode ter “invadido” um terreno que antes era só dela. Escolha seu pai ou sua mãe para conversar. Refira-se precisamente aos motivos de sua irritação. Algumas vezes, uma irmã mais velha aborrece apenas por ser maior, por ter mais liberdade do que você tem agora, mas que terá mais tarde. Entre os filhos, dar ordens uns para os outros normalmente é uma furada. O papel cabe aos pais e aos adultos em geral.

Minha irmãzinha faz tudo o que eu faço...
Isso quer dizer: primeiro, ela tem vontade de crescer; segundo, que ela o admira. Ela só tem o desejo de estar em pé de igualdade com você, e cabe a você ser indulgente. Por isso, tenha um pouco de paciência, pois os pequenos sempre acabam achando as próprias atividades e, uma hora, deixarão você em paz.

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Cada uma na sua

No artigo “Ciúme e Rivalidade entre irmãos”, da psicóloga Luciana Aguiar, a autora descreve o sentimento de rivalidade como parte de uma configuração familiar, mas sempre num jogo ambivalente de sentimentos. “O fundamental para que as crianças vivenciem isso de uma forma mais tranqüila e que não venha a ser um problema, é algo bem anterior à própria chegada dos irmãos: é a qualidade da relação que a criança já estabelece com os pais”, escreve.
Q

Ciúmes
Qualidade da relação da criança com os pais evita sentimento exagerado de rivalidade dela com irmão recém-nascido
uando Micheli era um bebê, Vanessa recorda ter derrubado a irmã do carrinho. O incidente foi, na verdade, uma manifestação – um pouco atrapalhada – de carinho e não de ciúme, como a maioria pode pensar. “Eu nem me lembro disso”, conta Micheli Reddin, 18 anos. Apesar de Vanessa ser cinco anos mais velha do que a irmã, a convivência sempre foi calma e de muito respeito. “Eu comecei a namorar cedo, aos 16 anos. Quando ela começou a sair, ficou mais difícil sairmos juntas”, justifica Vanessa Reddin, de 22.
Não há problemas em emprestar blusas e sapatos – desde que, é claro, a interessada avise do empréstimo. Os poucos programas que ainda fazem juntas é assistir filmes em casa e, quando Vanessa quer uma trança no cabelo, é Micheli quem faz. “Eu não sei fazer trança em mim”, ri Vanessa. Raramente vão ao shopping juntas, um programa que faziam quando eram mais novas. Voltando um pouco mais no tempo, lembram que uma das brincadeiras mas recorrentes era maquiar uma a outra. Brincar de bonecas era um bom programa para a Micheli, que poderia ficar horas sozinha com suas bonecas. “Ela ficava tão quietinha que minha mãe achava que ela estava dormindo”, recorda a irmã mais velha.
Enquanto Vanessa gosta de pagode, “fala um monte” – opinião da Micheli – e se preocupa com contas e com a família, Micheli curte mais pop/rock, se veste mais despojada e é mais reservada. Para Vanessa, a irmã que se veste “mais séria”, Micheli é uma pessoa extremamente dedicada aos estudos. “Ela é muito persistente no que faz, sempre estudou muito”, admite Vanessa.

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Relacionamento

Alberto Goldin, psicanalista
goldin@oglobo.com.br

Acordos de um casamento moderno

Aos 15 anos, vi meus pais se separarem numa ação litigiosa. Minha mãe sempre foi muito dura, só me aproximei dela após a separação. Tenho 45 anos e sou casada há 25 com Rubens. Nosso relacionamento foi fundado em uma amizade de muitos anos. O casamento sempre teve compreensão, cumplicidade e união. Temos uma filha. Descobri, no fim do ano passado, que o Rubens mantinha encontros com homens, marcados através da internet. Segundo ele, ninguém desconfia dessa preferência. Antes, fizemos terapia de casal e a terapeuta disse que existia amor, que só precisávamos aparar as arestas. Há dois anos não temos relações sexuais. Vivemos como irmãos. Tenho medo de dar um basta nessa situação. Minha filha cobra uma atitude. Minha psicóloga e meu psiquiatra me ajudam muito, mas estou arrasada e me pergunto: por que isso aconteceu comigo? Marta.

* * *

Juntos, eles fabricaram 25 anos de história, até o dia em que a Marta, por acaso, foi surpreendida pela presença indesejável de alguns fantasmas masculinos em torno do Rubens, que, segundo sua própria confissão, admitiu visitá-los com alguma freqüência. Como é lógico, essa descoberta mudou a sua vida, e Marta pede ajuda. Precisa entender e decidir seu destino.
A reação mais esperada e simples seria expulsar sumariamente o Rubens, o que seria relativamente fácil. A dificuldade viria mais tarde, quando a infelicidade presente fosse apagando as horas felizes do passado. Neste caso, o Rubens, sob o impacto da ruptura, sairia de casa, montaria seu apartamento e seus fantasmas, agora sem barreiras, poderiam se fazer presentes e oficiais. Problema resolvido...
Ainda assim, a Marta tem dúvidas, e nos pergunta se existem outras alternativas. De imediato, respondemos que sim, sempre há, só que para identificá-las será necessário compreender melhor as motivações do Rubens.
Um homem que marca encontros sexuais com outros homens é homossexual. Seu casamento com a Marta lhe permite argumentar alguma bissexualidade, ainda que modificar sua qualificação não mude em nada as circunstâncias. Os desejos sexuais do Rubens, como os de qualquer ser humano, são inexoráveis: nem os fabricou de propósito nem poderá apagá-los só porque não coincidem com seu estado civil. Seus verdadeiros fantasmas não são os encontros de internet, mas a homossexualidade com a qual certamente conviveu durante toda a sua vida.
Se o Rubens verdadeiramente “merece” castigo por seus desejos, também merece um prêmio por suportá-los em silêncio durante décadas. Milhares de homens e mulheres estão nessa situação e sofrem porque não se enquadram nas suas próprias expectativas sociais. Creio, em função dos dados disponíveis, que a homossexualidade do Rubens não o impediu de amar a Marta. Não poderia fingir afeto e amizade durante tantos anos. Creio que realmente prefere estar casado, ainda que uma grande parte da sua vida só possa se manifestar fora da sua casa.
Aí entra a internet, resolvendo o paradoxo de permitir relações sexuais exclusivamente sexuais, sem nenhuma relação humana. Concluímos que esses episódios fizeram com que tudo mudasse para a Marta. Acabou o mistério e, se aceitar o desafio de permanecer casada, terá que assumir a parte mais difícil da história: compreender e aceitar (ou não) sua nova situação. O dado favorável é que o novo Rubens já não tem segredos, é mais confiável e torna possível que, pela primeira vez, seja estabelecido um diálogo sincero. O sexo em casa continuará ausente, porém a Marta terá condições de discutir e negociar algumas questões delicadas e jamais abordadas. Referimo-nos a acordos mútuos de liberdade ou fidelidade, direito e privacidade, futuros relacionamentos etc.
Assim, o luto de um final de casamento poderá se alternar com o entusiasmo de uma nova relação, menos convencional e em bases mais complexas, porém mais verdadeiras. Se conseguirem um acordo, terão um casamento moderno, no qual ambos poderão desfrutar do amor e da amizade antigos, ou, no pior dos casos, se nada disso for possível, terão direito a uma separação à moda antiga, com hostilidade, advogados, lembranças e fantasmas.

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Sexo e Saúde

Mitos sobre a gravidez

O médico Jairo Bouer escreve neste espaço todas as segundas-feiras
jbouer@uol.com.br

“Queria saber se urinar logo depois do garoto gozar dentro da vagina pode evitar a gravidez?”
“Se eu ejacular no banheiro e o esperma descer pelo ralo do chuveiro, mas ficar algum restinho preso e, depois, uma mulher conseguir pegar e colocar dentro da vagina, ela pode engravidar?”
“Meu pênis produziu lubrificação, minha namorada passou a mão nele e limpou na blusa. Logo em seguida colocou a mesma mão na vagina. Ela pode engravidar?”

* * *

Todas as dúvidas desta semana têm um ponto em comum: o verdadeiro pânico dos casais em enfrentar uma gravidez indesejada. E como prevenir é sempre o melhor remédio, vamos tentar esclarecer dúvidas e desfazer mitos.
O maior risco de gravidez ocorre quando há uma relação sexual completa (pênis na vagina), o garoto ejacula dentro do corpo da garota e o casal não usa nenhum método de proteção (nem camisinha, nem pílula, nem nada). Nessa situação, se a garota está no seu período fértil, os especialistas dizem que o risco de engravidar pode chegar a quase 20%. Bastante alto, não é mesmo?
Em uma relação sexual desprotegida em que o garoto não ejacula, o risco de gravidez é bem menor, mas ele pode existir. Isso porque, mesmo na lubrificação do pênis, pode haver espermatozóides que são liberados antes do momento da ejaculação. Outra forma possível: se o garoto ejacular na mão da garota e ela, logo em seguida, colocar os dedos na vagina, ela pode fazer um transporte direto de espermatozóides e ficar em situação de risco.
Tirando essas situações, o risco de engravidar é bastante improvável. Assim, espermatozóides presos no ralo, mão que encosta apenas na lubrificação, sentar em um vaso sanitário de banheiro público, tomar banho em uma banheira em que um garoto ejaculou horas antes, entrar na piscina do motel, entre outras situações já recebidas aqui na coluna, não parecem ser ameaças reais.
É sempre bom lembrar que medidas básicas de higiene e saúde são ótimas aliadas. Por exemplo, lavar as mãos depois de momentos mais íntimos é fundamental. Tomar banho depois do sexo também é uma boa idéia.
Mas não vamos confundir higiene com mitos e lendas: urinar depois de fazer sexo sem proteção, ficar de cabeça para baixo, lavar a vagina com refrigerante, colocar o chuveirinho dentro da vagina, nada disso é capaz de evitar uma gravidez. Esses métodos são furados. Poucos segundos depois da ejaculação, os espermatozóides já estão no útero Por isso é fundamental se prevenir e usar camisinha e algum tipo de método anticoncepcional.



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