clicRBS

Buscar
Joinville Terça-feira, 04 de setembro de 2007 Santa Catarina - Brasil

Anexo - A Notícia Fabiano Melato
(47) 3431-9293
fabiano.melato@an.com.br

Divino em traços e cores

Exposição “Vera Sabino – Pinturas”, que abre hoje na Capital, mistura poesia e tradição açoriana

fotos divulgação


Imagens de procissões são referência nas pinturas da artista

Florianópolis

Pintura, poesia e tradição popular se misturam e compõe a mostra “Vera Sabino – Pinturas”, que abre hoje no Espaço Cultural Governador Celso Ramos – BRDE, na Capital. Com o pincel, a artista interpreta os poemas de 15 autores catarinenses, na série “As Vozes da Poesia”, e o cortejo da festa do Espírito Santo, uma das manifestações religiosas mais popular da Ilha, nos quadros “Imagens do Divino”.

Tradição
Festa popular já havia sido pintada por Vera num painel que retrata o Cortejo do Divino, na Câmara de Vereadores da Capital
As imagens de procissões do Divino são referências de Vera sobre a tradição açoriana. Ela gosta de reproduzir o folclore catarinense, sempre junto com as suas experiências de vida. O tema já havia sido pintado por Vera, inclusive em um painel que retrata o Cortejo do Divino na Câmara de Vereadores de Florianópolis.
Foi durante contato com os habitantes das ilhas de Açores, quando levou suas outras obras para uma exposição itinerante, há cerca de dois anos, que a motivação para pintar o Divino surgiu com mais intensidade. “Eles me pediram para fazer a exposição sobre o Divino”, relembra. Depois da Capital , “Vera Sabino – Pinturas” segue para os Açores, em Portugal, mas ainda não foi definida uma data.
Mesmo utilizando referências pessoais sobre a festa do Divino, Vera realizou uma vasta pesquisa sobre a tradição, mas encontrou dificuldades. “Não havia material sobre o Divino, nem nas escolas”, lamenta. Foi aí que teve acesso ao livro “Caminhos do Divino”, de Lélia Pereira. Ela conta que o livro foi importante fonte de inspiração para a criação das telas, pois traz um levantamento minucioso sobre os cortejos em Santa Catarina.
A história de Vera com a pintura começou cedo. Aos oito anos já pintava, e aos 14 foi 1º lugar no Prêmio Desenho, no Salão de Artes Plásticas para Novos, em Curitiba (PR). Aos 18 anos expôs individualmente pela primeira vez, na Capital.
As primeiras pinceladas retratavam outros lugares em que Vera viveu, como Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro, além de ter um lado social mais pronunciado. Só que os temas sempre voltados para as histórias que ouvia na infância, como as bruxas de Franklin Cascaes, santos, igrejas e figuras femininas.
Com tinta acrílica e eucatex, ela prefere fazer primeiro o esboço da tela, e só depois começa a colorir. A técnica é sua marca registrada. "Por mais que eu explique, ninguém faz igual", diz.

O quê: abertura da exposição “Vera Sabino – Pinturas”. Quando: Hoje, às 19 horas, com visitação até 21 de setembro, das 9 às 21 horas, de segunda a sexta-feira. Onde: Espaço Cultural Governador Celso Ramos - BRDE, avenida Hercílio Luz, 617, Centro de Florianópolis. Quanto: Gratuita.

...................................................

Escritores também vão ter espaço na mostra

Junto com a abertura da exposição de Vera Sabino ocorre sessão de autógrafos dos autores Péricles Prade, que assina o livro “Pantera em Movimento”, e Lélia Pereira, com a obra “Caminho do Divino: Um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina”, que tem a capa e ilustrações assinadas por Vera Sabino.
O livro serviu como base de pesquisa para a criação das telas da pintora. Lélia conta que pesquisa sobre o tema desde 1987. “O livro é resultado de uma pesquisa longa sobre a festa em território catarinense. Fala sobre os primeiros registros em Florianópolis, Jaguaruna e Lages, entre outros."
Sem caráter religioso, “Caminho do Divino” é uma crônica histórico-cultural. O trabalho é a primeira fase de um projeto de Lélia, que envolve escrever também sobre a festa do Divino nos Açores. Por isso, o livro será lançado também em terras portuguesas simultaneamente à exposição de Vera.
“Pantera em Movimento”, de Péricles Prade, é o primeiro livro do autor que traz poesias obre amor. Antes acostumado a escrever sobre ocultismo e alquimia, em que o lado da imaginação e do fantástico predominavam, foi o amor pela atual companheira que o motivou a escrever sobre o tema.
As poesias trazem um erotismo contido, que, segundo, Péricles, se realaciona com a sensualidade. “Muitos poemas denominados eróticos têm carga forte de obscenidade e pornografia, mas não é o caso desse livro."

...................................................

Eterno

“F. Alt, Artista Ancestral”, mostra composta de 30 painéis fotográficos que retratam a obra do escultor alemão radicado em Joinville, chega hoje a Blumenau, às 19h30, no hall do saguão do bloco A da Universidade Regional de Blumenau (Furb). O evento conta também com a exibição de um vídeo-documentário que completa a mostra. O evento é gratuito. Retratados pelo professor e diretor do Museu Fritz Alt, Walter de Queiroz Guerreiro, os painéis resgatam a estética utilizada pelo autor em sete cidades catarinenses e contribuem para entender o universo plástico do artista. Guerreiro abre o evento com a palestra que dá nome à mostra, enfocando a vida e a obra já abordadas pelo pesquisador no livro “F. Alt – A Vontade do Desejo”, lançado em maio deste ano. Fritz Alt (1902 -1968) é ate hoje um marco nas artes visuais catarinenses.

_______________________________

Crônica

monica.blumenau@hotmail.com

Mônica torres, jornalista

De barriga cheia

Talvez pela minha idade, tenho recebido mais e mais notícias de amigas, primas, cunhadas e colegas grávidas. É o relógio biológico provocando uma epidemia ao meu redor. Além da boa notícia da chegada de mais seres humanos complexos para enriquecer as nossas vidas, estas gestações também são promessas de pouquíssimas variações de assuntos nas minhas rodas de conversa por nove meses ou mais.
Sim, porque, como o leitor deve saber, uma gravidez demora em média 40 semanas. Praticamente dez meses. E as mulheres descobrem a novidade cada vez mais cedo, com quatro, cinco semanas de gestação. Viva a tecnologia, o.k. Mas isto também significa que, se tudo correr conforme o esperado, as felizardas estarão condenadas a 36 meses sem nenhum outro assunto para discutir que não suas barrigas.
É impressionante. Ao avistar um barrigão proeminente, o assunto inicial deixa de ser o clima ou a novela das oito. Até estranhos na fila do supermercado resolvem puxar conversa:
– Pra quando é?
E as grávidas respondem, orgulhosas, usando todos os prognósticos possíveis: a data que diz o ultra-som, a esperança da vó de fazer aniversário com o neto, a previsão da vizinha, o que diz o “instinto de mãe” – que nestes casos costuma ser facilmente ludibriado pela ansiedade. Suspeito que todas estas variações são na verdade tentativas desesperadas de responder a algo diferente, para não passar todos aqueles meses respondendo a apenas “pro fim de outubro” ou seja lá qual data.
Alguns parecem confundir barriga com bola de cristal e fazem uma sessão com a grávida-interlocutora. Ela está enjoando? Quantos quilos engordou? Já sabe o sexo? Qual será o nome? Parto normal ou cesárea? O quarto já está pronto? Com quem vai ficar o bebê no fim da licença-maternidade? E se alguém aí achou que o questionário-padrão, lido assim, cruamente, parece íntimo, saiba que o pior ainda não mencionei.
A atração pela barriga. Por algum bizarro e desconhecido motivo, as pessoas mais distantes, com quem você mal falou antes da gravidez, ou simplesmente estranhos completos se vêem no direito de passar a mão na sua barriga. Logo a barriga, com a qual todas nós vivemos lutando. Durante estes meses não precisamos nos preocupar em escondê-la, é bem verdade. E algumas até arriscam tops e transparências que andavam longe do guarda-roupa desde que o maior hit da Madonna era “Like a Virgin”. Mas isso não quer dizer “toque aqui”.
É difícil não pensar no próprio umbigo quando se está gerando uma vida. E é um prazer falar sobre os filhos. Mas como ser mãe é trabalho 24 horas, às vezes uma folga vai bem.
Se encontrar um barrigão andando por aí, por favor, tente lembrar que existe uma mulher acoplada a ele. Então, no meio do questionário-padrão, fale do aquecimento global, do último filme que viu no cinema ou coisas assim. Os ouvidos da barriga agradecerão.

_______________________________

Múltiplas

TV

Abrem inscrições para “BBB 8”

Já estão abertas as inscrições para o “Big Brother Brasil 8”. O prazo vai até o dia 15 de outubro. O regulamento e o formulário de inscrição estarão disponíveis no site do programa (www.globo.com/bbb). Para participar da seleção é necessário imprimir, preencher e enviar a ficha pelo correio com um vídeo de cinco minutos de duração, em VHS ou DVD, para o endereço indicado na página de internet. Além disso, uma equipe de produtores do reality show vai percorrer São Paulo, Salvador, Recife e Porto Alegre para descobrir pessoas que não se inscreveram e convidar para participar do processo de seleção do “BBB 8”, informa a Globo.

...................................................

Cinema

“Halloween” lidera bilheterias

Mais uma versão do terror “Halloween” mostra que a história de uma criança malvada que cresce e persegue uma babá continua em alta. "Halloween", com direção de Rob Zombie, volta à história do original de John Carpenter. O longa alcançou o primeiro lugar entre os filmes de maior arrecadação neste fim de semana nos Estados Unidos, com US$ 26,5 milhões. Em segundo ficou a comédia “Superbad – É Hoje”, que somou US$ 12,2 milhões, menos da metade do arrecadado pelo remake.

...................................................

Alegria e educação contra o preconceito

Sueli Ramos se apresenta hoje na Semana da Diversidade

Hermínio Nunes

Para organizadores, divulgar a 2a Semana da Diversidade é a melhor forma para debater a cultura gay no Estado

Florianópolis

As ruas do centro da Capital ganharam mais alegria e um colorido especial com a 2ª Semana da Diversidade. Até sábado, filmes, música, teatro, fotografia e pintura são “armas” para enfrentar o preconceito. Hoje, além das mostras agendadas até sábado (confira a programação), tem show com a cantora Sueli Ramos, às 20 horas. Os eventos culturais estão concentrados na antiga Câmara de Vereadores, na praça 15 de Novembro, no centro. O prédio histórico foi transformado na Casa da Diversidade.
Com o tema Amar É Direito de Todos, a semana tem como objetivo quebrar preconceitos contra gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e simpatizantes, os GLBTS. “A parada não é um Carnaval fora de época, por isso preparamos uma semana inteira de atividades para promover o debate. O preconceito só se cura com esclarecimento”, explica Tiago Silva, idealizador da Parada da Diversidade.
A Casa da Diversidade ficará aberta até sábado, com entrada gratuita, das 10 às 23 horas. A exemplo do ano passado, quando teve sala cheia em todas as sessões, será realizada a 2ª Mostra de Filmes da Diversidade. O 1º Curta a Diversidade dará a oportunidade de exibição de filmes e vídeos não-profissionais. A mostra fotográfica inclui imagens da Parada de 2006 e um ensaio com drag queens.
Amanhã, a casa ganha cores politizadas. A partir das 19 horas, será realizado um debate sobre projetos políticos de interesse GLBTS, como a lei da deputada Iara Bernardi que criminaliza a homofobia no Brasil. Em seguida, às 20 horas, será apresentada a peça de teatro “As Irmãs Gavião”. Durante toda a semana, funcionará, também na Casa, o Salão da Diversidade, com profissionais voluntários que vão fazer cortes de cabelo a preços populares.
O Fórum da Diversidade será realizado quinta e sexta-feira e é uma promoção da Associação Brasileira para o Turismo GLBTS. O objetivo é contribuir para a formação de mão-de-obra qualificada para lidar com o público GLBTS. O 2º Floripa Diversity Games será no sábado, a partir das 10 horas. As inscrições podem ser feitas na Casa da Diversidade e no local do evento. Cada participante deve levar cinco quilos de alimento, que serão doados ao Asilo Irmão Joaquim, da Capital. As modalidades são atletismo, futebol sete society, futsal, tênis de mesa e vôlei. A 2ª Parada da Diversidade encerra a programação no domingo. São esperadas 40 mil pessoas para o desfile, que terá shows musicais e perfomances. Estão confirmadas as presenças do apresentador Leão Lobo e da drag queen Silvetty Montilla.

...................................................

Agende-se

Show Musical Sueli Ramos
Quando: hoje, às 20 horas
Onde: Casa da Diversidade

Debate Político GLBTS
Quando: amanhã, às 19 horas
Onde: Casa da Diversidade

Teatro As Irmãs Gavião
Quando: amanhã, às 20 horas
Onde: Casa da Diversidade

2ª Mostra de Filmes

da Diversidade
Quando: até sábado, das 18 às 20 horas e das 21 às 23 horas
Onde: Cineclube Diversidade na Casa da Diversidade

1ª Mostra Curta

a Diversidade
Quando: até sábado,

horário a definir
Onde: Casa da Diversidade

Camarim de Drag
Quando: até sábado, das

14 às 23 horas
Onde: Casa da Diversidade

Mostra Fotográfica

Parada 2006 e Drags
Quando: até sábado, das

14 às 23 horas
Onde: Casa da Diversidade

Exposição de Pinturas –

Floripa é Show
Quando: até sábado, das

14 às 23 horas
Onde: Casa da Diversidade
Teatro de Quinta
Quando: quinta, às 20 horas
Onde: Casa da Diversidade

Workshop Sensibilizando para a Diversidade
Quando: quinta, das

17 às 20 horas
Onde: Hotel Natur Campeche, avenida Pequeno Príncipe, 2.196, Campeche

1º Fórum de Turismo GLBTS

de Florianópolis
Quando: sexta, das

14 horas às 19h30
Onde: Hotel Natur Campeche, avenida Pequeno Príncipe, 2.196, Campeche

Festa Eu Amo Viajar
Quando: sexta, das

20 horas às 22h30
Onde: Pousada Natur Campeche, servidão Família Nunes, 59, Campeche

2º Floripa Diversity Games
Quando: sábado, das

10 às 17 horas
Onde: Cefid/Udesc, rua Pascoal Simonte, 358, Coqueiros

2ª Parada da Diversidade
Quando: domingo, a partir das 13 horas
Onde: avenida Beira-mar Norte, em frente ao trapiche

_______________________________

Festival de música

Swing sem palavras

Considerado pela crítica especializada um dos melhores baixistas do mundo, Arthur Maia é o destaque do quarto dia do 10º Festival de Música de Itajaí. A apresentação gratuita, que já está com os ingressos esgotados, será aberta hoje pela banda Samburá, às 21 horas, no Teatro Municipal de Itajaí.
Arthur Maia já contracenou na cena musical com nomes como Ivan Lins, Luiz Melodia e Márcio Montarroyos, além de estabelecer boas parcerias com Caetano Veloso, Lulu Santos e George Benson, entre outros. Fundou a Banda Pulsar e o grupo Cama de Gato, duas vertentes da música instrumental brasileira, e também integrou a Banda Black Rio e o grupo pop Egotrip, sucesso da década de 80.
Com quatro discos solo na bagagem, seu novo show, “Planeta Música”, não é apenas instrumental. Maia envolve a platéia acompanhado por um quarteto de bateria, teclados, guitarra e saxofone e faz uma leitura suingada da música instrumental brasileira. No repertório, Arthur traz uma coletânea de suas várias fases e apresenta composições próprias, como “Jú, Tunico e Trilock”, parcerias como “Alívio” (Arthur Maia e Djavan), “Condição” (Arthur Maia e Lulu Santos), “Muchacha” (Arthur e Júlio Martins) e “Planeta Música” (Arthur, Seu Jorge e Kiko Continentino). Abre espaço também para as dançantes “De Ombro” (Jamil Joanes) e “Groove Land” (Paulo Braga) e da homenagem a ele, composta por William Magalhães, “Arthur e o Gigante”.
O Festival de Música de Itajaí segue até 9 de setembro e terá ainda na Mostra Nacional os show de Zezé Motta (5), João Donato (6), Gal Costa (7), Demônios da Garoa (8), no Teatro Municipal. Elba Ramalho encerra o Festival de Música no dia 9, às 21 horas, com grande show de rua, na avenida Mário Uriarte, bairro Cordeiros.

O quê: 10º Festival de Música de Itajaí, show de Arthur Maia. Quando: Hoje, às 21 horas. Onde: Teatro Municipal de Itajaí, rua Lauro Müller, 53, Centro. Quanto: Entrada Gratuita (ingressos esgotados).

 Segunda-feira
Universo Feminino

Terça-feira
 Literatura

Quarta-feira
Turismo

Quinta-feira
Música

Sexta-feira
Fim de semana

Sábado
Gastronomia e DVD

...................................................

De volta ao pesadelo

Novo livro de Khaled Hosseini, autor de “O Caçador de Pipas”, aborda a opressão da mulher no Afeganistão

ap

Violência contra as mulheres afegãs é anterior ao regime taleban, afirma Khaled Hosseini (D)

Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado/São Paulo

Lançado há pouco mais de três semanas no Brasil, o segundo livro do médico e escritor afegão Khaled Hosseini, “A Cidade do Sol” (Editora Nova Fronteira, 368 páginas, R$ 39,90) já chegou ao primeiro lugar na lista dos mais vendidos, repetindo o êxito de seu livro de estréia, “O Caçador de Pipas”, que vendeu 8 milhões de exemplares em todo o mundo (mais de 1 milhão só no Brasil). Assim como “O Caçador de Pipas”, cuja versão cinematográfica estréia em novembro nos EUA – e em janeiro, no Brasil –, “A Cidade do Sol” já teve os direitos vendidos para o cinema e deve estrear em 2009.
Hosseini, que concedeu entrevista por telefone, da Califórnia, está, obviamente, muito feliz com a repercussão dos dois livros. Mais ainda por considerar que tanto um como outro estão ajudando o mundo a entender um pouco da cultura do Afeganistão, vítima, diz ele, da miopia ocidental que confunde seu país com a doutrina do Taleban.
Khaled Hosseini defende que não se pode ignorar o conflito entre a Cabul liberal e reformista e as forças mais reacionárias do Afeganistão rural, em especial as regiões que fazem fronteira com o Paquistão, onde as mulheres sofrem a perda da autonomia e ainda são submetidas à opressão masculina, bem anterior à emergência do regime taleban em seu país (em 1996). “A Cidade do Sol”, aliás, dedica-se a explorar esse abismo ideológico que existe entre a realidade tribal e patriarcal do Afeganistão e o mundo moderno. Ao eleger como heroínas mulheres maltratadas por um mesmo homem, Hosseini presta homenagem a todas as mulheres humilhadas e ofendidas em nome de uma tradição canhestra. “A história só tomou forma depois de uma viagem a Cabul, em 2003, onde ouvi o relato de uma mulher espancada na rua por um taleban”, conta.

...................................................

Khaled Hosseini | escritor

Quando “O Caçador de Pipas” foi publicado, muitos leitores que nada sabiam do Afeganistão ficaram tão emocionados com a história que lhe escreveram perguntando como podiam ajudar seu país. O que aconteceu com o lançamento de “A Cidade do Sol”? Você acredita que seus livros possam ajudar as pessoas no Ocidente a se livrar da visão estereotipada que elas têm dos afegãos?
Khaled
Hosseini – Imediatamente após o lançamento de “O Caçador de Pipas”, passei a receber uma média de 16 mensagens diárias pelo correio eletrônico, a maioria delas escrita por pessoas que tinham pouca ou nenhuma informação sobre o Afeganistão além de que foi um país invadido primeiro pelos soviéticos e, depois, pelos americanos. Grande parte dessas mensagens, curiosamente, vinha de crianças ou de mulheres, tocadas pelo drama vivido por seus semelhantes no Afeganistão. Resolvi, então, servir de ponte para ajudar meus compatriotas, disponibilizando o endereço de entidades que recebiam doações.

Edward Said disse há 30 anos, em “Orientalismo”, que o Ocidente criou uma visão deturpada do Oriente como o “outro”, o antípoda, numa estratégia de diferenciação que perpetua os estereótipos colonialistas. Qual a sua opinião sobre a observação de Said?
Hosseini
– Concordo com Said quando analisa a visão que o mundo ocidental tem do Oriente, mais especificamente do mundo árabe, visto como uma massa homogênea, quando é uma cultura rica e diversificada. Estamos tratando de mais de 1 bilhão de pessoas que falam línguas diferentes e de uma região com grande diversidade étnica e cultural. Quando vejo, por exemplo, o Afeganistão retratado nos noticiários e programas de TV, fico escandalizado com os inúmeros equívocos de interpretação do universo cultural afegão.

Em sua opinião, qual é o mais chocante desses equívocos?
Hosseini
– Considerando as mensagens eletrônicas enviadas por meus leitores, o equívoco maior é o de considerar que o povo afegão é antiamericano e favorável ao regime repressor do Taleban, o que nem de longe corresponde à realidade. Prova disso são os milhões de refugiados que deixaram o país quando o Taleban tomou o poder há 11 anos.

“O Caçador de Pipas”, aliás, é bastante crítico com relação ao regime do Taleban, embora deixe de lado a situação da mulher sob o tacão dos radicais, preferindo falar do universo masculino. Esse foi o motivo de ter escrito “A Cidade do Sol” como uma espécie de "mea-culpa" por ter falado tão pouco da condição feminina no Afeganistão?
Hosseini
– Bem, devo admitir que não foi uma decisão consciente escrever sobre a condição feminina sob o regime taleban. Em “O Caçador de Pipas” estava certo de que essa seria a história de dois pequenos amigos, um que enfrentaria o conflito interno de sua omissão e outro que permaneceria fiel e íntegro à amizade, mas, no caso de “A Cidade do Sol”, não tinha personagens em mente. Havia ainda a questão da paternidade no primeiro livro e pensei que seria interessante tratar, desta vez, da relação entre mãe e filha. Já pensava nisso ao fazer a revisão final de “O Caçador de Pipas”, mas a história só tomou forma depois de uma viagem a Cabul, onde ouvi a história de uma mulher espancada na rua por um taleban. Percebi que o drama da opressão feminina precisava ser tratado com certa urgência e foi daí que surgiu Mariam, obrigada a casar com um homem rude, criada para servir o marido e usar a burca.

Então houve um incidente que inspirou “A Cidade do Sol”, como o do garoto Moussa, seu vizinho pobre de Cabul, adotado como modelo do Hassan de “O Caçador de Pipas”?
Hosseini
– Não diria que foi um incidente, mas o conjunto de depoimentos que tomei das mulheres durante a viagem que fiz ao Afeganistão em 2003. Elas me levaram a escrever o livro, numa tentativa de mostrar como a realidade pode mudar de uma hora para a outra, especialmente para as mulheres, que exerciam profissões liberais e foram obrigadas a se anular e voltar para casa por conta da opressão do Taleban e da guerra.

Qual é a lembrança mais remota que você tem do Afeganistão, uma vez que deixou o país quando seu pai diplomata decidiu buscar o refúgio europeu após a invasão soviética?
Hosseini
– Era apenas uma criança de 11 anos quando deixamos Cabul, quatro anos antes da invasão soviética, em 1979. Minhas memórias são de um garoto daquela idade – bastante seletivas, portanto. Não comportam julgamentos morais ou políticos. Lembro-me que vivíamos numa Cabul calma, silenciosa, mas não posso julgar pelos outros, porque era um garoto da alta classe média e vivia uma realidade diferente, embora tivesse amigos pobres.

Você costuma dizer que Cabul não é o Afeganistão – ou pelo menos não era antes da invasão soviética ou da tomada do poder pelos fundamentalistas islâmicos. Você defende que a Cabul reformista e liberal foi atropelada pelo reacionarismo dos camponeses do resto do país, orientados pelas forças talebans. Há alguma chance de mudar essa cultura sem uma ação política agressiva por parte do Estado, como, por exemplo, foi a abolição da burca, em 1920, por ordem do rei Amanullah?
Hosseini
– Acho que esse tipo de ação drástica é inoperante, porque são séculos e séculos de condicionamento cultural, uma ordem que mantém as mulheres fragilizadas diante dos homens. Mulheres que eram advogadas ou professoras foram obrigadas pelos fundamentalistas a abjurar suas profissões e nada indica que uma simples lei possa, num passe de mágica, resgatar a dignidade delas. Acho que as mudanças devem se dar lentamente, por meio das organizações formadas para lutar pelos direitos civis, porque ainda existe um abismo entre o que deseja a liberal Cabul e o que prescrevem as forças reacionárias do Afeganistão rural.

Voltando ao seu primeiro sucesso, “O Caçador de Pipas”, o filme baseado em seu livro e dirigido por Mark Foster deve estrear em novembro, nos EUA, e em janeiro, no Brasil. Você aprova a adaptação?
Hosseini
– Coloquei-me à disposição dos produtores do filme para servir como consultor e, de fato, dei muitos conselhos sobre figurinos, locações, costumes e modo de falar dos afegãos. Mas não me envolvi diretamente com a produção por estar, na época, ocupado com “A Cidade do Sol”. O filme resultou muito fiel ao livro e, diria, é bem emocionante.

Às vezes as críticas vêem de forma mais ácida, como a resenha de “A Cidade do Sol” no “New York Times”, em maio, que classifica o livro de programático e melodramático, acusando-o ainda de ser dualista e lidar com emoções baratas. Isso não o perturba?
Hosseini
– Fui incrivelmente abençoado pela vasta maioria das resenhas que consegui ler sobre meus dois livros. A alguém que classifica o livro de melodramático aconselharia uma viagem ao Afeganistão para ver realmente o que significa a palavra drama. Aconselharia ainda a falar com as mulheres em Cabul, que continuam a ter uma vida muito parecida com a de Mariam. De resto, considero uma tarefa dificílima escrever melodrama sobre o Afeganistão porque, não importa o que se diga ou escreva, a realidade sempre será mais dramática do que suportaria a imaginação de alguém.

Como você espera que os leitores recebam seu novo livro, que está entre os mais vendidos no Brasil?
Hosseini
– Espero que encontrem nele uma boa história e bons personagens, porque, afinal, trata-se de uma novela que pretende estabelecer uma ligação emocional com os leitores. Espero também que eles entendam a situação das mulheres no Afeganistão, que é trágica e não resulta apenas de um conflito bélico, mas de uma guerra moral contra o patriarcalismo. O futuro do Afeganistão, afinal, depende delas.

...................................................

Biografia reúne fotos, textos e músicas de Vinicius de Moraes

São Paulo

Recheada de fotos históricas, texto de Sérgio Augusto e reproduções de manuscritos, a Editora Jobim Music está lançando “Cancioneiro Vinicius de Moraes – Biografia e Obras Escolhidas”, uma nova e concisa biografia do poeta, compositor, diplomata e jornalista Vinicius de Moraes (1913-1980), que dá ênfase ao aspecto musical de sua carreira. O volume só será vendido em conjunto com um songbook contendo 57 músicas selecionadas pelo músico, produtor e arranjador Paulo Jobim, filho de Tom, um dos parceiros mais significativos de Vinicius.
“A grande novidade é esse livro conter a biografia profissional de Vinicius e as partituras também. Isso tudo está por aí, como material de pesquisa, mas é uma compilação de uma obra”, diz Ana Lontra Jobim, coordenadora-geral do luxuoso projeto. A seleção do material foi feita pelos Jobins e pela família de Vinicius com a filha do poeta, Susana Moraes, acompanhando tudo mais de perto e tomando decisões.
O songbook contempla as principais parcerias de Vinicius com Tom Jobim, Baden Powell, Toquinho, Carlos Lyra, Chico Buarque (que escreveu o texto da contracapa da biografia) e Edu Lobo, entre outros. O repertório também inclui “Por Onde Andará o Amor”, parceria inédita de Vinicius e Tom (que este tinha planejado incluir em seu derradeiro álbum, “Antonio Brasileiro”) e várias canções em que ele fez letra e melodia. “Além de incrível poeta, Vinicius era também compositor e tinha muita musicalidade”, lembra Paulo Jobim.
Na biografia, Sérgio Augusto lembra que “o que Vinicius fez entre 1965 e 1970 a maior parte da humanidade não faz ao longo de uma vida”. Ele fez cinema, teatro e jornalismo, organizou e participou de festivais de música, deu shows por toda parte, juntou-se a novos parceiros (como Chico Buarque), conquistou novos mercados na Europa e na América do Sul, publicou sua obra poética completa. Além do mais, “separou-se da quinta mulher, casou-se com a sexta e, antes de a década terminar, já tinha, como Barba Azul, uma sétima esposa”.
Acompanhando fotos históricas ao lado de gente como Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Ciro Monteiro, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e todos os parceiros já citados, há frases antológicas do poeta. Numa delas, Vinicius se define como um homem muito complicado em busca da simplificação. “Mas as complicações não são tanto minhas, mas impostas pelo meio e a sociedade em que vivo. Em mim, o sonho é uma realidade incoercível. Sonhar, sobretudo, com a poesia ainda não atingida.”

_______________________________

Jabor

a.j.producao@uol.com.br

O comentarista Arnaldo Jabor escreve neste espaço todas as terças-feiras

O Rio piorou internamente, dentro das cabeças (...). O Rio foi uma cidade que sempre carreguei para onde ia, como uma amuleto da sorte, um "brevê" orgulhoso de carioca

O Rio de Janeiro caiu em depressão

Sou um homem de duas cidades. Moro em São Paulo há 15 anos e mantenho raízes no Rio. Vou e volto. Às vezes, passo um mês sem ir ao Rio e isso me permite vê-lo melhor. É espantoso perceber o tempo passando no espaço. Vejo as árvores da Lagoa, que estão mais crescidas, noto mínimas mutações invisíveis ao morador permanente, sinto mudanças em gestos, modos de falar, gírias recentes, uma fachada art-decô que caiu, um horrendo shopping vertical que subiu, o terrível pirocão do Bar Vinte que continua transformando Ipanema num gueto amarelo e sujo, vejo roupas mais amarfanhadas, tristezas nos rostos outrora alegres, sinto a ausência das cigarras, dos pardais, vejo misérias novas nos sinais de trânsito. Antes, não notava tanto essas coisas e sinto dizer-vos: o Rio piorou.
Não sei se para sempre, mas sua crise é hoje gritante. Não apenas pelas tragédias políticas que tivemos, 40 anos de populismo corrupto comandado pela Alerj e governadores, não apenas pelos oito anos da anomalia política Garotinho e senhora, não apenas pelo vergonhoso desleixo de César Maia, não apenas pelo fim do Estado da Guanabara, que nos trouxe os vícios do atraso fluminense e nenhuma vantagem, não apenas pela violência inevitável que a multinacional do pó financia nos morros e os narizes “patricinhos” avalizam, não apenas por isso, não pelos assaltos ou crimes.
O Rio piorou internamente, dentro das cabeças. O Rio era uma região psíquica para mim. O Rio foi uma cidade que sempre carreguei para onde ia, como um amuleto de sorte, um “brevê” orgulhoso de carioca. Mas, infelizmente, está um bode.
Neste momento, pareço ouvir o rosnar de ódio contra mim, nos bares. Eriçam-se – como “cerdas bravas do javali” – os pêlos de chopeiros e cariocas da gema, de bermudão e gargalhada. Sei disso. Mas, repito, o Rio piorou. Primeiro, porque não tem dinheiro algum. É uma cidade falida, sem empreendimentos, além do bolsão de petróleo de Campos, feudo dos corruptos fluminenses (aliás, é bom notar que falo do Rio, principalmente, como cidade).
Outro fator da decadência é a insolubilidade dos problemas. Em nossa mente paira o desespero: como vamos urbanizar 570 favelas que crescem? Ninguém sabe. Por causa dos problemas insolúveis, começamos a exalar depressão. O carioca da gema dirá: “Qual é a tua, cara, estamos numa boa!” E eu respondo: “Não estamos, não!”
É que esta depressão não é óbvia, visível, daquelas de enfiar a cabeça no bueiro, não. Ela vem disfarçada por falsas racionalizações. Por exemplo, ela pode vir vestida de um abstrato amor à paisagem: “Ahh, vamos eleger o Cristo maravilha do mundo (cheio de assaltantes na base); ahhh, vamos louvar o Leblon; ahh, vamos abraçar a Lagoa e pedir a paz; ah, o Pan foi um sucesso (apesar de ter custado oito vezes mais caro).
Esta depressão instalada no Rio também se camufla atrás de um narcisismo auto-suficiente, como se fôssemos ainda “malandros”, como se soubéssemos de tudo: “Ah, cara, quem sacou sacou; quem não sacou, não vai sacar nunca”, tudo por trás de um vago “cafajestismo poético” , por trás de uma certa irresponsabilidade como tradição “malemolente”. Vejo também no Rio uma desinformação disseminada pelas questões políticas mais complexas. Discute-se como se as ideologias fosse um “Fla x Flu”, tipo “Lula x neoliberais”, não se contemplam as ramificações econômicas e políticas de nossa crise atual, há o vago sentimento de uma certa esquerda abstrata, da boca para fora, um populismo simplista que deu no que deu: na eleição de Rosinha, em vez de Benedita, na época (até hoje, não sei como isso pode ter acontecido).
A depressão carioca também se transfigura em euforia carnavalizada, com a hipersexualização do samba e do turismo, a sacralização das bundas e barrigas, a boçalização da música de massas. Tudo isso é decadência denegada. Somos uma cidade sem informação, se comparada com São Paulo hoje em dia. Nas escolas, nas universidades, na oferta cultural high brow, São Paulo é muito superior à carioca. Mas por que falo isso?
Bem, porque acho que também há sementes brotando nesse lixo urbano. Nas periferias pobres já vimos exemplos como o que o “Centro da Periferia” nos mostrou na TV, na ação civilizatória do AfroReggae e outros. Falo também porque vi ontem o filme “Brasileirinho”, um belo trabalho sobre o chorinho, feito por um finlandês, Mika Kaurismaki (é incrível como o cinema novo passou sem um filme sobre nossa música. Só agora, o “Vinicius” do Miguel Faria). Saí emocionadíssimo. Lá estava uma esperança, nas músicas e figuras de Mauricio Carrilho, Tereza Cristina, Luciana Rabelo, Guinga, Paulo Moura, Zé da Velha, Cristovam Bastos, Carlos Malta, Yamandú Costa... Tantos. Lá estava o indício de que a história de um país gera também anticorpos contra o horror.
Há, no Rio, um renascimento do choro na classe média (minha irmã pianista, Lucilia Jabor, já tinha me alertado para isso), ressurge um amor defensivo pela música (e pela vida) que estava silencioso. Nos botecos do Rio, em escolas, já brotou uma nova moda musical carioca. Eu sou do tempo em que o Rio tinha uma cor artística, um brilho que esmaeceu com a cultura de massas. O choro, o nosso jazz (que, aliás, salvou a América dos brancos azedos), pode ser uma alavanca de alegria e de orgulho. Acho que o governo de Sergio Cabral começou cheio de ânimo. Há que se combater a violência, sim, com garra e dureza, mas temos de estimular também a leveza, a alegria. Mika, o diretor, disse: “Nesta batalha entre a tristeza e a alegria, a alegria tem de vencer.”
Sergio Cabral devia nomear seu pai secretário da Música, cercado por homens como Hermínio Belo, Paulo Moura, Albino Pinheiro, se fosse vivo. Winton Marsalis declarou sobre o jazz: “O jazz é como a democracia. Cada um tem direito a seu solo, mas tem de negociar esse direito com o conjunto”. O mesmo serve para o choro. Não percam esse filme. É um remédio melhor que qualquer Prozac.



   Este Portal é melhor visualizado na resolução 800x600
Expediente
 Copyright © A Notícia - Fone 055-0xx47 3431 9000 - Fax 055-0xx47 3431 9100
 Rua Caçador, 112 - CEP 89203-610 - C. Postal: 2 - 89201-972 - Joinville - SC - Brasil