Joinville Domingo, 15 de abril de 2007 Santa Catarina - Brasil


Anexo D Domingo

VIDA

Eles respiram futebol

Algumas pessoas são tão apaixonadas pelo esporte que basta uma vitória do time do coração para todos os problemas desaparecerem

DIEGO SANTOS

Se não fossem esses malucos que riem, que choram, se descabelam, gritam, xingam, cantam, enfrentam sol e chuva na arquibancada, percorrem quilômetros pelo time do coração, que perdem o sono para lamentar a derrota, que perdem o sono para comemorar a vitória... o futebol seria menos engraçado. Melhor, não teria graça. Afinal, são esses fanáticos sem nome que tornam uma coisa tão simples em algo extraordinário. Sem eles, seriam apenas 11 pessoas para cada lado, correndo atrás de uma bola. Quem acertá-la mais vezes dentro de um retângulo, ganha.
Todo mundo tem uma pontinha de inveja dos loucos por futebol. Basta uma vitória, um gol, uma tarde de glória de seu artilheiro preferido e pronto. Parece um remédio que faz todos os problemas do mundo desaparecerem. A conta que vence amanhã já não tem mais importância, a briga com a mulher por causa da comida sem sal foi esquecida e o sono... Ah! O sono. Será como dormir nas nuvens.
E quem não gosta de futebol se pergunta: “Como pode?”. Nem perca seu tempo quebrando a cabeça. No país de Pelé, Garrincha, Zico, Romário e Ronaldinho Gaúcho, você faz parte de uma minoria. A maioria se apaixona ao experimentar a sensação de ir a um estádio lotado ou de marcar um gol, mesmo que seja em joguinho de vídeo-game.
O Anexo de Domingo traz a história de quatro pessoas. Jean, Márcio, Pepê e o pequeno Rafael fazem do futebol uma paixão que impulsiona suas vidas. Tudo fica em segundo plano quando a bola começa a rolar. Se eles são loucos por futebol? Não. Louco é quem não é apaixonado por tudo isso.

diego.santos@an.com.br

Um país doido pelo futebol

O futebol nasceu da frieza do inglês e acabou virando a cachaça do brasileiro. Algo que sempre intrigou o historiador Leonardo Affonso de Miranda Pereira, professor do departamento de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Pereira respondeu esta questão em sua tese de doutorado, defendida em 1998, que virou o livro “Footballmania. Uma história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938)”. A obra ganhou o Prêmio Jabuti de Ciências Humanas no ano passado.
Em quatro anos de estudos, o historiador derrubou algumas teses. Uma delas é a de que o futebol foi, um dia, um esporte só da elite. A descoberta foi feita por meio da pesquisa em documentos policiais dos primeiros anos do século passado. Na época, era obrigatório comunicar à polícia o desejo de se criar uma agremiação. Pereira identificou clubes formados, em sua maioria, por trabalhadores, que estavam ausentes da história contada sobre futebol.
Outro dado curioso da pesquisa é a ligação de futebol com diversão. Enquanto nos grandes clubes, como Flamengo e Fluminense, a preocupação da prática esportiva estava ligada à valorização da educação física na formação, nas agremiações populares era comum misturar Carnaval e futebol.
Para o historiador, foi no futebol que o brasileiro viu possibilidade de acabar com as diferenças sociais e discriminação racial.
Em 1934, pela primeira vez, um atleta negro, Leônidas Silva, foi convocado para jogar uma Copa do Mundo. Isso fez o povo acreditar que a mistura de raças passaria a ser vista não mais como um fardo, mas como uma vantagem.
No livro “Footballmania”, Pereira explica que foi por ocasião da Copa de 1938 que o sentimento nacional se consolidou em torno do futebol. Algumas imagens se cristalizaram em relação a ídolos negros, como Leônidas da Silva e o Domingos da Guia. A população passou a se identificar com uma seleção mestiça, afirma Pereira. É em 1938 que se enraízou no País o sentimento de que brasileiro joga futebol diferente. Acredita-se que o Brasil tem ginga, futebol malandro, que valoriza o drible, acrescenta o pesquisador. Crença que vai apaixonando cada vez mais os brasileiros.

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De Joinville para o mundo

Quando Pepê joga futebol, ele adora imitar os dribles de seu ídolo. Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Romário? Nada disso. O ídolo desse garoto fala um português diferente do nosso: Cristiano Ronaldo, craque da seleção portuguesa e do Chelsea, da Inglaterra. Pepê virou especialista em futebol internacional aos dez anos.
Das paixões de Pedro Fortuna pelo futebol, a única brasileira é o time que torce, o Corinthians. A partir daí, as diferente línguas começam a aparecer. O ídolo do alvinegro paulista continua sendo Carlito Tevez, mesmo que o argentino tenha ido para o futebol inglês há um bom tempo. Clubes que sonha defender um dia? Barcelona ou Chelsea.
Tanto conhecimento vem do vídeo-game. Passa horas manipulando os botões do Winning Eleven, um jogo que impressiona pela semelhança entre os bonecos virtuais e os jogadores de verdade. “Sempre escolho a Seleção de Portugal só para jogar com o Cristiano Ronaldo.”
Na vida real, Pepê imita os dribles do astro português na escolinha de futebol do São Paulo, montada em um clube da zona Norte de Joinville. Um ensaio para o futuro. Quando crescer quer seguir os passos de Cristiano Ronaldo, atuar como meia-atacante, chegar à Seleção e ao Chelsea. Isso, claro, se Crisitiano Ronaldo ainda estiver por lá. “Ele é o melhor de todos”, decreta o jovem, com a mesma confiança que o atacante português parte para cima dos adversários em jogos do clube inglês.
Para que o menino citasse apenas um jogador brasileiro, a reportagem teve de insistir muito: “Deve ter alguém no Corinthians que o agrade um pouquinho?”. “Tá bom vai... o Nilmar”, fala, lembrando que o atacante machucou o joelho e deve ficar longe do gramados pelos próximos seis meses.
O pai, o dentista Sérgio Fortuna, vai com mais calma. “É importante que ele pratique uma atividade física e nunca deixe os estudos em segundo plano. E vamos ver o que acontece no futuro. Se der certo, será uma boa aposentadoria para mim”, brinca.

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Cada um com sua mania

E pensar que tudo começou com uma promoção em uma loja de material esportivo! Foi assim que Márcio Catafesta comprou sua primeira camisa, quando tinha dez anos. Logo vieram outras e mais e mais... E Catafesta teve de comprar um armário só para guardá-las.
Todas colocadas sob uma organização impressionante. Numa porta, as nacionais, nas outras, as internacionais. Mais embaixo, as meias, os shorts e por aí vai. A mulher Emilene, que gosta de deixar a casa toda certinha, com cada coisa no seu lugar, nem precisa se preocupar. É o próprio marido que organiza tudo.
Hoje, com 27 anos, Catafesta tem uma coleção de mais de 300 camisas de times de futebol. Nem o pai, Arduíno, patrocinador das primeiras camisas do filho, acredita. Enquanto Catafesta vai tirando uma por uma do armário, o pai diz: “Isso é coisa de louco”. Muita gente está pensando a mesma coisa, seu Arduíno.
“Gosto de ficar olhando, vestindo, mostrando para meus amigos. Só não tenho mais porque vendi algumas”, lembra.
Algumas vieram das mãos dos próprios jogadores de futebol. Como a do Paraná Clube de Rafael Mussamba e a do Joinville de Lica. Camisas do tricolor é o que não faltam. Tem de todo jeito: treino, jogo, reserva e até uma histórica, confeccionada para apenas uma partida do JEC. “A gente sempre dá um jeitinho de conseguir.”
Talvez a vontade de Catafesta fosse vestir essas camisas em jogos de verdade, em campos de verdade. E olha que esse rapaz se esforçou para conseguir.
Jogou em clubes amadores de Joinville. Depois, foi tentar a sorte no Paraná Clube. Voltou para Santa Catarina para defender o Atlético Alto Vale. E viu que seu futuro estava mesmo ao lado do pai, comandando uma empresa de transporte de executivos. “Hoje, futebol é só uma grande paixão”, afirma. Uma paixão guardada com muito cuidado no armário de casa.

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Tomado pela febre vermelha

De repente, ele começa a cantar: “Glória do desporto nacional, oh, Internacional, que eu vivo a exaltar...” E tem gente que não acredita que a paixão do brasileiro pelo futebol vem do berço. Essas pessoas não conhecem crianças como Juninho.
Um menino de cinco anos que aprendeu a bradar o hino do colorado gaúcho antes de qualquer cantiga tão ensaiada nas salas de aulas. Para qualquer criança, o saci é apenas uma lenda de histórias em quadrinhos. Rafael sabe que esse negrinho de uma perna só é o símbolo de um clube pelo qual toda sua família é apaixonada.
Rafael Armínio Selbach Júnior é joinvilense, mas a paixão pelo Internacional vem da família gaúcha. Na casa de Juninho, todo mundo é colorado e ele acabou contaminado por essa febre vermelha. Decorou o hino do time do coração de tanto entrar no site do clube. Sempre que a página abria, a música começava a rodar e ficou gravada na memória do pequeno torcedor.
Durante um tempo, um vídeo em que aparecia cantando Celeiro de Ases – esse é o nome do hino do clube escrito em 1957 por Nélson Silva – aparecia no site oficial do Inter.
E não é que Juninho quer ser jogador de futebol quando ficar um pouquinho maior? Ele tem convicção que um dia estará no lugar do ídolo Fernandão. E que na próxima vez que o Inter cruzar o oceano para conquistar o mundo, como fez no final do ano passado, ele estará lá. Honrando a tradição e os sentimentos da família e vestindo a camisa colorada.
“É teu passado alvi-rubro, motivo de festas em nossos corações, o teu presente diz tudo, trazendo à torcida alegres emoções...”, canta Juninho.

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Primeiro o jogo, depois o resto

É um alemão de quase 1,90m de altura que não pára de falar. Tudo para ele é motivo de piada. Só tem uma hora que faz cara de brabo. É quando o Vasco perde. Jean Helfenberg é vascaíno e jequeano. Depois disso tem outras coisas na vida: é sócio de uma fábrica de papel, tem mulher, pais, irmã... Duvida que alguém seja tão fanático? Então, leia essa história.
Jean casou com Fernanda no dia 17 de fevereiro. A cerimônia começava às 20 horas. Motivo de agonia para esse alemão fanfarrão. O Joinville jogaria nesse mesmo dia, no estádio da Arena, às 17 horas, contra o Brusque. Jean colocou na balança duas paixões: o JEC e a noiva. Fez os cálculos e correu para a Arena.
Viu JEC e Brusque empatarem por 1 a 1 pelo Campeonato Catarinense. Assim que ouviu o apito final, correu para casa. Para se arrumar para o casamento? Claro que não. O Vasco também estava em campo, jogando contra o Fluminense pelo Carioca. Ainda dava para ver o segundo tempo na TV.
Quando Jean chegou na Igreja contando detalhes das duas partidas, os convidados se surpreenderam. Ninguém acreditou que ele estava em um campo de futebol três horas antes de casar. “Cheguei no horário, não cheguei?”, repetia o noivo.
Jean herdou a paixão do pai, Ingo Helfenberg, outro jequeano e vascaíno. Mas aprimorou e muito o que aprendeu. “Ele almoça e vai ver as mesas-redondas na TV. Volta do trabalho à noite e tem mais mesa-redonda. É inacreditável”, entrega Fernanda. E ainda tem um rádio que deve ter sido fabricado há mais de 20 anos. Velhinho, é verdade, mas que sintoniza com perfeição as rádios do Rio de Janeiro. Às 22 horas de todo santo dia, aconteça o que acontecer, ele liga o rádio pra ouvir os programas esportivos da Cidade Maravilhosa.
Há poucas semanas, esqueceu o inseparável companheiro dentro do carro de um amigo. “Fiquei doente, duas noites sem dormir”, diz. Jean nasceu assim. Por isso, Fernanda não reclama.
E como todo menino apaixonado por bola, também queria jogar no Vasco um dia. Mas jogou no Fluminense. Do Itaum, clube amador de Joinville. Hoje, só brinca nas peladas com os amigos. E o que tem em comum com os jogadores de futebol profissional são as seguidas lesões. “Estou sempre machucado. Agora estou com uma lesão na coxa. Meus amigos brincam que meu sonho é ter uma lesão no ligamento cruzado anterior. Igualzinho aos jogadores de verdade”, brinca o vascaíno.

Dicionário

Impedimento – É uma irregularidade no futebol. Acontece quando o atacante recebe a bola à frente da linha do último zagueiro adversário.

Gato – Para diminuir a idade, jogadores falsificam a documentação.

Drible da vaca – O atacante avança, toca a bola por um lado do defensor e corre pelo outro.

Gaveta – Quando o atacante joga a bola entre as pernas do zagueiro.
Bicicleta – No ar, o jogador tem de girar o corpo para acertar a bola. Na foto, Pelé marcando seu primeiro gol de bicicleta.

Chocolate – É quando um time vence o outro com facilidade.
Clássico – Quando dois tradicionais e rivais times se encontram.

Fazer graça – Quem faz graça é o jogador que enfeita demais as jogadas

Chapéu – O jogador faz a bola passar por cima do corpo do adversário.

Migué - O atleta simula uma contusão para não participar de treinos ou jogos.

Trivela – O jogador chuta a bola usando os três últimos dedos do pé.
Ganhar no grito – Quando o jogador conquista a posse de bola reclamando com o árbitro.

Gol de placa – Gol bonito.

Gol de ouro – Fórmula usada para decidir partidas. Após empate no tempo normal, a partida vai para prorrogação de trinta minutos. Nesse período, quem fizer o gol primeiro ganha.

Leão de treino – É aquele que treina bem, mas não corresponde no jogo.

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Capa Anexo D Domingo

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Vida Eles respiram futebol

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