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Eles respiram futebol
Algumas pessoas
são tão apaixonadas pelo esporte que basta uma
vitória do time do coração para todos os
problemas desaparecerem
DIEGO SANTOS
Se não fossem esses malucos que riem, que choram, se
descabelam, gritam, xingam, cantam, enfrentam sol e chuva na
arquibancada, percorrem quilômetros pelo time do coração,
que perdem o sono para lamentar a derrota, que perdem o sono
para comemorar a vitória... o futebol seria menos engraçado.
Melhor, não teria graça. Afinal, são esses
fanáticos sem nome que tornam uma coisa tão simples
em algo extraordinário. Sem eles, seriam apenas 11 pessoas
para cada lado, correndo atrás de uma bola. Quem acertá-la
mais vezes dentro de um retângulo, ganha.
Todo mundo tem uma pontinha de inveja dos loucos por futebol.
Basta uma vitória, um gol, uma tarde de glória
de seu artilheiro preferido e pronto. Parece um remédio
que faz todos os problemas do mundo desaparecerem. A conta que
vence amanhã já não tem mais importância,
a briga com a mulher por causa da comida sem sal foi esquecida
e o sono... Ah! O sono. Será como dormir nas nuvens.
E quem não gosta de futebol se pergunta: Como pode?.
Nem perca seu tempo quebrando a cabeça. No país
de Pelé, Garrincha, Zico, Romário e Ronaldinho
Gaúcho, você faz parte de uma minoria. A maioria
se apaixona ao experimentar a sensação de ir a
um estádio lotado ou de marcar um gol, mesmo que seja
em joguinho de vídeo-game.
O Anexo de Domingo traz a história de quatro pessoas.
Jean, Márcio, Pepê e o pequeno Rafael fazem do futebol
uma paixão que impulsiona suas vidas. Tudo fica em segundo
plano quando a bola começa a rolar. Se eles são
loucos por futebol? Não. Louco é quem não
é apaixonado por tudo isso.
diego.santos@an.com.br
Um país doido pelo futebol
O futebol nasceu da frieza do inglês e acabou virando
a cachaça do brasileiro. Algo que sempre intrigou o historiador
Leonardo Affonso de Miranda Pereira, professor do departamento
de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp).
Pereira respondeu esta questão em sua tese de doutorado,
defendida em 1998, que virou o livro Footballmania. Uma
história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938).
A obra ganhou o Prêmio Jabuti de Ciências Humanas
no ano passado.
Em quatro anos de estudos, o historiador derrubou algumas teses.
Uma delas é a de que o futebol foi, um dia, um esporte
só da elite. A descoberta foi feita por meio da pesquisa
em documentos policiais dos primeiros anos do século passado.
Na época, era obrigatório comunicar à polícia
o desejo de se criar uma agremiação. Pereira identificou
clubes formados, em sua maioria, por trabalhadores, que estavam
ausentes da história contada sobre futebol.
Outro dado curioso da pesquisa é a ligação
de futebol com diversão. Enquanto nos grandes clubes,
como Flamengo e Fluminense, a preocupação da prática
esportiva estava ligada à valorização da
educação física na formação,
nas agremiações populares era comum misturar Carnaval
e futebol.
Para o historiador, foi no futebol que o brasileiro viu possibilidade
de acabar com as diferenças sociais e discriminação
racial.
Em 1934, pela primeira vez, um atleta negro, Leônidas Silva,
foi convocado para jogar uma Copa do Mundo. Isso fez o povo acreditar
que a mistura de raças passaria a ser vista não
mais como um fardo, mas como uma vantagem.
No livro Footballmania, Pereira explica que foi por
ocasião da Copa de 1938 que o sentimento nacional se consolidou
em torno do futebol. Algumas imagens se cristalizaram em relação
a ídolos negros, como Leônidas da Silva e o Domingos
da Guia. A população passou a se identificar com
uma seleção mestiça, afirma Pereira. É
em 1938 que se enraízou no País o sentimento de
que brasileiro joga futebol diferente. Acredita-se que o Brasil
tem ginga, futebol malandro, que valoriza o drible, acrescenta
o pesquisador. Crença que vai apaixonando cada vez mais
os brasileiros.
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De Joinville para o mundo
Quando Pepê joga futebol, ele adora imitar os dribles
de seu ídolo. Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Romário?
Nada disso. O ídolo desse garoto fala um português
diferente do nosso: Cristiano Ronaldo, craque da seleção
portuguesa e do Chelsea, da Inglaterra. Pepê virou especialista
em futebol internacional aos dez anos.
Das paixões de Pedro Fortuna pelo futebol, a única
brasileira é o time que torce, o Corinthians. A partir
daí, as diferente línguas começam a aparecer.
O ídolo do alvinegro paulista continua sendo Carlito Tevez,
mesmo que o argentino tenha ido para o futebol inglês há
um bom tempo. Clubes que sonha defender um dia? Barcelona ou
Chelsea.
Tanto conhecimento vem do vídeo-game. Passa horas manipulando
os botões do Winning Eleven, um jogo que impressiona pela
semelhança entre os bonecos virtuais e os jogadores de
verdade. Sempre escolho a Seleção de Portugal
só para jogar com o Cristiano Ronaldo.
Na vida real, Pepê imita os dribles do astro português
na escolinha de futebol do São Paulo, montada em um clube
da zona Norte de Joinville. Um ensaio para o futuro. Quando crescer
quer seguir os passos de Cristiano Ronaldo, atuar como meia-atacante,
chegar à Seleção e ao Chelsea. Isso, claro,
se Crisitiano Ronaldo ainda estiver por lá. Ele
é o melhor de todos, decreta o jovem, com a mesma
confiança que o atacante português parte para cima
dos adversários em jogos do clube inglês.
Para que o menino citasse apenas um jogador brasileiro, a reportagem
teve de insistir muito: Deve ter alguém no Corinthians
que o agrade um pouquinho?. Tá bom vai...
o Nilmar, fala, lembrando que o atacante machucou o joelho
e deve ficar longe do gramados pelos próximos seis meses.
O pai, o dentista Sérgio Fortuna, vai com mais calma.
É importante que ele pratique uma atividade física
e nunca deixe os estudos em segundo plano. E vamos ver o que
acontece no futuro. Se der certo, será uma boa aposentadoria
para mim, brinca.
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Cada um com sua mania
E pensar que tudo começou com uma promoção
em uma loja de material esportivo! Foi assim que Márcio
Catafesta comprou sua primeira camisa, quando tinha dez anos.
Logo vieram outras e mais e mais... E Catafesta teve de comprar
um armário só para guardá-las.
Todas colocadas sob uma organização impressionante.
Numa porta, as nacionais, nas outras, as internacionais. Mais
embaixo, as meias, os shorts e por aí vai. A mulher Emilene,
que gosta de deixar a casa toda certinha, com cada coisa no seu
lugar, nem precisa se preocupar. É o próprio marido
que organiza tudo.
Hoje, com 27 anos, Catafesta tem uma coleção de
mais de 300 camisas de times de futebol. Nem o pai, Arduíno,
patrocinador das primeiras camisas do filho, acredita. Enquanto
Catafesta vai tirando uma por uma do armário, o pai diz:
Isso é coisa de louco. Muita gente está
pensando a mesma coisa, seu Arduíno.
Gosto de ficar olhando, vestindo, mostrando para meus amigos.
Só não tenho mais porque vendi algumas, lembra.
Algumas vieram das mãos dos próprios jogadores
de futebol. Como a do Paraná Clube de Rafael Mussamba
e a do Joinville de Lica. Camisas do tricolor é o que
não faltam. Tem de todo jeito: treino, jogo, reserva e
até uma histórica, confeccionada para apenas uma
partida do JEC. A gente sempre dá um jeitinho de
conseguir.
Talvez a vontade de Catafesta fosse vestir essas camisas em jogos
de verdade, em campos de verdade. E olha que esse rapaz se esforçou
para conseguir.
Jogou em clubes amadores de Joinville. Depois, foi tentar a sorte
no Paraná Clube. Voltou para Santa Catarina para defender
o Atlético Alto Vale. E viu que seu futuro estava mesmo
ao lado do pai, comandando uma empresa de transporte de executivos.
Hoje, futebol é só uma grande paixão,
afirma. Uma paixão guardada com muito cuidado no armário
de casa.
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Tomado pela febre vermelha
De repente, ele começa a cantar: Glória
do desporto nacional, oh, Internacional, que eu vivo a exaltar...
E tem gente que não acredita que a paixão do brasileiro
pelo futebol vem do berço. Essas pessoas não conhecem
crianças como Juninho.
Um menino de cinco anos que aprendeu a bradar o hino do colorado
gaúcho antes de qualquer cantiga tão ensaiada nas
salas de aulas. Para qualquer criança, o saci é
apenas uma lenda de histórias em quadrinhos. Rafael sabe
que esse negrinho de uma perna só é o símbolo
de um clube pelo qual toda sua família é apaixonada.
Rafael Armínio Selbach Júnior é joinvilense,
mas a paixão pelo Internacional vem da família
gaúcha. Na casa de Juninho, todo mundo é colorado
e ele acabou contaminado por essa febre vermelha. Decorou o hino
do time do coração de tanto entrar no site do clube.
Sempre que a página abria, a música começava
a rodar e ficou gravada na memória do pequeno torcedor.
Durante um tempo, um vídeo em que aparecia cantando Celeiro
de Ases esse é o nome do hino do clube escrito
em 1957 por Nélson Silva aparecia no site oficial
do Inter.
E não é que Juninho quer ser jogador de futebol
quando ficar um pouquinho maior? Ele tem convicção
que um dia estará no lugar do ídolo Fernandão.
E que na próxima vez que o Inter cruzar o oceano para
conquistar o mundo, como fez no final do ano passado, ele estará
lá. Honrando a tradição e os sentimentos
da família e vestindo a camisa colorada.
É teu passado alvi-rubro, motivo de festas em nossos
corações, o teu presente diz tudo, trazendo à
torcida alegres emoções..., canta Juninho.
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Primeiro o jogo, depois o resto
É um alemão de quase 1,90m de altura que não
pára de falar. Tudo para ele é motivo de piada.
Só tem uma hora que faz cara de brabo. É quando
o Vasco perde. Jean Helfenberg é vascaíno e jequeano.
Depois disso tem outras coisas na vida: é sócio
de uma fábrica de papel, tem mulher, pais, irmã...
Duvida que alguém seja tão fanático? Então,
leia essa história.
Jean casou com Fernanda no dia 17 de fevereiro. A cerimônia
começava às 20 horas. Motivo de agonia para esse
alemão fanfarrão. O Joinville jogaria nesse mesmo
dia, no estádio da Arena, às 17 horas, contra o
Brusque. Jean colocou na balança duas paixões:
o JEC e a noiva. Fez os cálculos e correu para a Arena.
Viu JEC e Brusque empatarem por 1 a 1 pelo Campeonato Catarinense.
Assim que ouviu o apito final, correu para casa. Para se arrumar
para o casamento? Claro que não. O Vasco também
estava em campo, jogando contra o Fluminense pelo Carioca. Ainda
dava para ver o segundo tempo na TV.
Quando Jean chegou na Igreja contando detalhes das duas partidas,
os convidados se surpreenderam. Ninguém acreditou que
ele estava em um campo de futebol três horas antes de casar.
Cheguei no horário, não cheguei?, repetia
o noivo.
Jean herdou a paixão do pai, Ingo Helfenberg, outro jequeano
e vascaíno. Mas aprimorou e muito o que aprendeu. Ele
almoça e vai ver as mesas-redondas na TV. Volta do trabalho
à noite e tem mais mesa-redonda. É inacreditável,
entrega Fernanda. E ainda tem um rádio que deve ter sido
fabricado há mais de 20 anos. Velhinho, é verdade,
mas que sintoniza com perfeição as rádios
do Rio de Janeiro. Às 22 horas de todo santo dia, aconteça
o que acontecer, ele liga o rádio pra ouvir os programas
esportivos da Cidade Maravilhosa.
Há poucas semanas, esqueceu o inseparável companheiro
dentro do carro de um amigo. Fiquei doente, duas noites
sem dormir, diz. Jean nasceu assim. Por isso, Fernanda
não reclama.
E como todo menino apaixonado por bola, também queria
jogar no Vasco um dia. Mas jogou no Fluminense. Do Itaum, clube
amador de Joinville. Hoje, só brinca nas peladas com os
amigos. E o que tem em comum com os jogadores de futebol profissional
são as seguidas lesões. Estou sempre machucado.
Agora estou com uma lesão na coxa. Meus amigos brincam
que meu sonho é ter uma lesão no ligamento cruzado
anterior. Igualzinho aos jogadores de verdade, brinca o
vascaíno.
Dicionário
Impedimento É uma irregularidade no futebol.
Acontece quando o atacante recebe a bola à frente da linha
do último zagueiro adversário.
Gato Para diminuir a idade, jogadores falsificam a
documentação.
Drible da vaca O atacante avança, toca a bola
por um lado do defensor e corre pelo outro.
Gaveta Quando o atacante joga a bola entre as pernas
do zagueiro.
Bicicleta No ar, o jogador tem de girar o corpo para acertar
a bola. Na foto, Pelé marcando seu primeiro gol de bicicleta.
Chocolate É quando um time vence o outro com
facilidade.
Clássico Quando dois tradicionais e rivais times
se encontram.
Fazer graça Quem faz graça é o
jogador que enfeita demais as jogadas
Chapéu O jogador faz a bola passar por cima
do corpo do adversário.
Migué - O atleta simula uma contusão para não
participar de treinos ou jogos.
Trivela O jogador chuta a bola usando os três
últimos dedos do pé.
Ganhar no grito Quando o jogador conquista a posse de
bola reclamando com o árbitro.
Gol de placa Gol bonito.
Gol de ouro Fórmula usada para decidir partidas.
Após empate no tempo normal, a partida vai para prorrogação
de trinta minutos. Nesse período, quem fizer o gol primeiro
ganha.
Leão de treino É aquele que treina bem,
mas não corresponde no jogo.
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