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Joinville Domingo, 09 de dezembro de 2007 Santa Catarina - Brasil

Anexo D Domingo Carolina Mar Pereira/Genara Rigotti
(47) 3431-9291/(47) 3431-9197
carolina.mar@an.com.br/genara.rigotti@an.com.br

ANTONIO BAÇO

A madame é uma galinha

Não sei se há coisa mais terrível para um homem, num mundo que transborda a virilidade, do que ser derrotado por uma mulher. Mas eu confesso: fui vencido por uma tipa chamada Emma. E aviso que ela não é uma mulher qualquer: é Emma Bovary, personagem central do clássico “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert.
Desculpe, leitor intelectual que cultua os clássicos, mas não fui capaz de ler o livro todo. E fiz duas tentativas. A primeira, ainda adolescente, foi uma decepção total. Mas os meus pobres hormônios juvenis acabaram enfarados com tamanha falta de tensão sexual.
E foi a mesma frustração que senti há poucos dias, quando, nas férias, tentei resgatar essa “dívida” literária. Não agüentei a chatice, apesar de resistir até ao limite das minhas forças. O marcador ainda está lá, na página 163, para provar o meu esforço. Mas aquilo estava a encher o meu pobre saquinho e foi até onde consegui avançar. Que os críticos fundamentalistas não nos ouçam, mas o livro é um pé no saco.

De pernas abertas

Para o leitor que nunca passou pela experiência de ler o tal romance, eu faço um resumo da história. Não é um livro de páginas abertas, mas de pernas abertas. Emma é uma mulher jovem e bonita, com algumas idéias fúteis, que casa com um cara mais velho, um bronco chamado Charles Bovary. O problema é que, logo depois de casar, a mulher descobre que está louca para dar. Mas não para o marido.
O povão tem uma expressão muito esclarecedora para o caso:
– Água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher quando quer dar, ninguém segura.
Pois essa é a tal Madame Bovary. A tal senhora andava sempre com a perereca aos saltos. Isso até podia ser uma coisa interessante num filme pornográfico, porque a coisa aconteceria em 30 segundos. Mas no livro de Flaubert são mais de cem páginas de um texto cheio de descrições modorrentas e nenhuma ação. Sem clímax sexual.
Aliás, uma coisa prova que a tal madame não é boa gente. Ela teve uma filha com o marido e, num determinado momento do livro, surge a seguinte reflexão na sua cabeça cheia de veleidades:
– É uma coisa estranha como esta criança é feia.
Responda, leitor, que mãe acha os filhos feios? Por mais feios que sejam, uma mãe sempre os acha lindos. É daí que vem a expressão mãe-coruja. Mas Emma é uma “mãe-galinha”. Ahá... não pense mal, porque aqui em Portugal “mãe-galinha” é o mesmo que “mãe-coruja”. Sem maldade.

Os intelectuais chateiam

A sra. Bovary é uma vagaba. E o leitor, que ainda não leu o livro, deve estar a perguntar:
– Então, por que “Madame Bovary” se tornou um clássico?
Por causa do momento histórico. É que Flaubert tocou num tema tabu até a época: uma mulher a trair o marido. Ora... as mulheres traem os maridos desde a origem do mundo. Ou desde a origem do casamento. Só que até aquela altura ninguém tinha escrito um livro a respeito. Pontos para o Flaubert. Alás, o escritor foi levado a tribunal por ofensas à moral e à religião. Imagino que não era por a personagem ser adúltera, mas sim por usar camisinha.
Aposto que a esta altura já deve haver uma meia dúzia de intelectuais a saltar dentro das calças (ou das calcinhas, porque as mulheres adoram o raio do livro) e a mastigar os palavrões.
– Herege. Inculto. Estupor. Iliterato. Este é um dos mais belos romances da literatura francesa e mundial.
Ok... mas é uma chatice. Aliás, se a parte do sexo foi tão enfadonha, nem quero saber da parte onde ela toma veneno...
É como diz o velho deitado: “Pobre Charles Bovary. Casou com uma potranca e acabou com uma vaca”.

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