A madame é uma galinha
Não sei se há coisa mais terrível para
um homem, num mundo que transborda a virilidade, do que ser derrotado
por uma mulher. Mas eu confesso: fui vencido por uma tipa chamada
Emma. E aviso que ela não é uma mulher qualquer:
é Emma Bovary, personagem central do clássico Madame
Bovary, de Gustave Flaubert.
Desculpe, leitor intelectual que cultua os clássicos,
mas não fui capaz de ler o livro todo. E fiz duas tentativas.
A primeira, ainda adolescente, foi uma decepção
total. Mas os meus pobres hormônios juvenis acabaram enfarados
com tamanha falta de tensão sexual.
E foi a mesma frustração que senti há poucos
dias, quando, nas férias, tentei resgatar essa dívida
literária. Não agüentei a chatice, apesar
de resistir até ao limite das minhas forças. O
marcador ainda está lá, na página 163, para
provar o meu esforço. Mas aquilo estava a encher o meu
pobre saquinho e foi até onde consegui avançar.
Que os críticos fundamentalistas não nos ouçam,
mas o livro é um pé no saco.
De pernas abertas
Para o leitor que nunca passou pela experiência de ler
o tal romance, eu faço um resumo da história. Não
é um livro de páginas abertas, mas de pernas abertas.
Emma é uma mulher jovem e bonita, com algumas idéias
fúteis, que casa com um cara mais velho, um bronco chamado
Charles Bovary. O problema é que, logo depois de casar,
a mulher descobre que está louca para dar. Mas não
para o marido.
O povão tem uma expressão muito esclarecedora para
o caso:
Água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher
quando quer dar, ninguém segura.
Pois essa é a tal Madame Bovary. A tal senhora andava
sempre com a perereca aos saltos. Isso até podia ser uma
coisa interessante num filme pornográfico, porque a coisa
aconteceria em 30 segundos. Mas no livro de Flaubert são
mais de cem páginas de um texto cheio de descrições
modorrentas e nenhuma ação. Sem clímax sexual.
Aliás, uma coisa prova que a tal madame não é
boa gente. Ela teve uma filha com o marido e, num determinado
momento do livro, surge a seguinte reflexão na sua cabeça
cheia de veleidades:
É uma coisa estranha como esta criança é
feia.
Responda, leitor, que mãe acha os filhos feios? Por mais
feios que sejam, uma mãe sempre os acha lindos. É
daí que vem a expressão mãe-coruja. Mas
Emma é uma mãe-galinha. Ahá...
não pense mal, porque aqui em Portugal mãe-galinha
é o mesmo que mãe-coruja. Sem maldade.
Os intelectuais chateiam
A sra. Bovary é uma vagaba. E o leitor, que ainda não
leu o livro, deve estar a perguntar:
Então, por que Madame Bovary se tornou
um clássico?
Por causa do momento histórico. É que Flaubert
tocou num tema tabu até a época: uma mulher a trair
o marido. Ora... as mulheres traem os maridos desde a origem
do mundo. Ou desde a origem do casamento. Só que até
aquela altura ninguém tinha escrito um livro a respeito.
Pontos para o Flaubert. Alás, o escritor foi levado a
tribunal por ofensas à moral e à religião.
Imagino que não era por a personagem ser adúltera,
mas sim por usar camisinha.
Aposto que a esta altura já deve haver uma meia dúzia
de intelectuais a saltar dentro das calças (ou das calcinhas,
porque as mulheres adoram o raio do livro) e a mastigar os palavrões.
Herege. Inculto. Estupor. Iliterato. Este é um
dos mais belos romances da literatura francesa e mundial.
Ok... mas é uma chatice. Aliás, se a parte do sexo
foi tão enfadonha, nem quero saber da parte onde ela toma
veneno...
É como diz o velho deitado: Pobre Charles Bovary.
Casou com uma potranca e acabou com uma vaca.
_______________________________ |