Chatos, sarnas e micoses
Deus deve gostar dos chatos, porque fez muitos deles.
Há muita gente que tem o dom de provocar urticária
nos outros.
Se tivesse de dizer qual é o símbolo-mor da chatice,
diria que são os fiéis dessas igrejas alopradas
que pululam por aí: as criaturas não se contentam
em salvar as próprias almas, mas vivem na obrigação
de salvar também as almas dos outros. É um tédio.
Os caras estão sempre à porta da nossa casa (nas
piores horas) com uma revistinha que anuncia o fim do mundo.
E o pior: eles nos acusam de ser os culpados, porque vivemos
em pecado.
Inofensivos
Há os chatos que são como as micoses e provocam
pequenas irritações. É o caso das pessoas
que se referem a si mesmas na terceira pessoa. É comum
entre os futebolistas brasucas. Um useiro e vezeiro era o centroavante
Jardel, que jogou no Vasco e no Porto.
O repórter pergunta.
Então, Jardel, acha que vai fazer um golzinho hoje?
O jogador responde.
O Jardel está sempre de olho no gol. É por
isso que o Jardel é artilheiro do campeonato.
É irritante. Mas não tanto quanto os caras que
deixam o celular ligado quando vão ao cinema, teatro ou
estão numa sala de aula. E, cá entre nós,
gostaria de saber onde essa gente vai buscar aqueles toques esquisitos:
galos a cantar, nuvens de grilos... e até o hino do Corinthians,
mano. O pior é a cara-de-pau: os tipos estão no
teatro, o telefone toca e eles ainda atendem.
Um tipo de chato inenarrável é o chato socialite.
O cara não pode soltar um "pum" que a fotografia
dele tem de aparecer na coluna social. Na maioria das vezes são
pessoas irrelevantes, sem cultura ou qualquer charme. Mas sempre
dão um jeitinho de aparecer. É o onanismo mental
tornado celebridade.
Outro chato insuportável é o comedor de soja. Os
caras viram vegetarianos não por gostarem de vegetais,
mas por acharem mau matar animais para comer. Até aí
tudo bem, é uma opinião. Só que a maioria
das criaturas se preocupa mais com os animais do que com os seres
humanos. São uns alienadões que fazem manifestações
contra farra-do-boi e o escambau, mas não ligam patavina
para os pobres que morrem de fome ou as guerras que provocam
mortes atrás de mortes.
Patológicos
Também há os chatos patológicos, que
parecem sarna.
Aquele casal te convida para um jantarzinho. E quando você
está lá, pimba: fica refém da visualização
de um álbum de fotos da última viagem.
Olha nós aqui em Tracunhaém.
E aqui no centro de Pindamonhangaba.
Pior mesmo é quando os caras têm filhos e querem
mostrar fotografias dos pimpolhos. Não há paciência.
E há o chato musculoso. Os caras passam a vida nos ginásios
a levantar pesos e ficam a olhar para os próprios músculos
com um olhar apaixonado. Fazem pose. Viram de lado. Fazem beicinho.
Mas quando abrem a boca, só sai abobrinha. Se eu mandasse
no planeta, haveria uma regra. Para cada hora de maromba, duas
horas de leitura.
Mas a quintessência da imbecilidade são os caras
que gostam de impor a própria música. Essas toupeiras
gastam uma nota preta no aparelho de som do carro e depois andam
por aí com os decibéis quase a detonar os tímpanos
alheios. É uma coisa que os capiaus gostam de fazer na
praia: estacionam, abrem o porta-malas e bam-bam-bam. Há
sempre exércitos desses imbecis. Ah... o verão
vem aí e eles vão invadir a sua praia.
É como diz o velho deitado: "Irritante é uma
pessoa que, quando tem uma tosse, em vez de ir ao médico,
vai ao cinema".
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